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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Qual o Sentido Se Não Podemos Nos Divertir?

Qual o Sentido Se Não Podemos Nos Divertir?

Minha amiga June Thunderstorm e eu uma vez passamos meia hora sentads em uma campina próxima a um lago de montanha, assistindo a uma lagarta se balançar do alto de um talo de grama, se torcer em todas a direções possíveis, e então saltar para o próximo talo e fazer a mesma coisa. E assim ela procedeu, em um vasto círculo, com o que deve ter sido um vasto gasto de energia, pelo que não parecia qualquer razão que fosse.

"Todos os animais brincam", June uma vez me disse. "Mesmo as formigas". Ela tinha passado muitos anos trabalhando como uma jardineira profissional e tinha uma abundância de incidentes como este para observar e ponderar. "Olha", ele disse, com um ar de triunfo modesto. "Vê o que eu quero dizer?".

A maioria de nós, ao ouvir esta história, insistiria em provas. Como sabemos que a lagarta estava brincando? Talvez os círculos invisíveis que ela traçava no ar eram, na verdade, apenas uma busca por algum tipo desconhecido de presa. Ou um ritual de acasalamento. Podemos provar que não eram? Mesmo se a lagarta estivesse brincando, como sabemos que esta forma de brincadeira não servia a algum propósito, em última análise, prático: execício, ou auto-treinamento para alguma emergência de lagarta futura?

Esta seria a reação da maioria ds etólogs profissionais também. De maneira geral, uma análise do comportamento animal não é considerada científica a menos que se assuma que o animal, pelo menos tacitamente, esteja operando de acordo com os mesmos cálculos de meios/fim que se aplicaria a transações econômicas. Sob esta suposição, um gasto de energia deve estar direcionado a alguma meta, seja ela obter comida, assegurar território, alcançar uma posição dominante, ou maximizar o sucesso reprodutivo - a menos que se possa provar de maneira absoluta que não é, e provas absolutas em tais assuntos são, como se poderia imaginar, muito difíceis de se obter.

Devo enfatizar aqui que não importa realmente que tipo de teoria de motivação animal uma cientista possa cogitar: o que ela acredita que um animal esteja pensando, quer ela pense que um animal possa ser dito estar "pensando" qualquer coisa que seja. Não estou dizendo que etólogs realmente acreditam que animais são simplesmente máquinas de cálculo racional. Estou simplesmente dizendo que etólogs se fecharam em um mundo em que ser científico significa oferecer uma explicação do comportamento em termos racionais - o que por sua vez significa descrever um animal como se ele fosse um agente econômico tentando maximizar algum tipo de auto-interesse - qualquer que possa ser sua teoria da psicologia ou motivação animal.

É por isso que a existência da brincadeira animal é considerada algo como um escândalo intelectual. Ela é pouca estudada, e aquels que de fato a estudam são vists como levemente excêntrics. Assim como com muitas noções ameaçadoras e especulativas, critérios difíceis de satisfazer são introduzidos para que se prove que a brincadeira animal existe e, mesmo quando ela é reconhecida, a pesquisa, mais frequentemente do que não, canibaliza seus próprios entendimentos ao tentar demonstrar que a brincadeira deve ter alguma função de sobrevivência ou reprodutiva de longo prazo.

Apesar de tudo isto, aquels que realmente olham para o assunto são invariavelmente forçads à conclusão de que a brincadeira existe por todo o universo animal. E existe não apenas entre criaturas notoriamente frívolas como macacos, golfinhos, ou cachorrinhos, mas entre espécies improváveis como sapos, peixinhos, salamandras, caranguejos-violinistas e, sim, até formigas - que não apenas se engajam em atividades frívolas enquanto indivíduos, mas também já foram observadas, desde o século XIX, organizando guerras de mentira, aparentemente apenas pela diversão.

Por que os animais brincam? Bem, por que não deveriam? A verdadeira questão é: Por que a existência de ações executadas pelo puro prazer de agir, a exerção de poderes pelo puro prazer de exercê-los, nos parecem misteriosas? O que nos diz sobre nós mesmos que nos instintivamente assumimos que seja?

Sobrevivência dos Desajustados


A tendência no pensamento popular a ver o mundo biológico em termos econômicos estava presente nos primórdios da ciência Darwiniana no século XIX. Charles Darwin, afinal, tomou emprestado o termo "sobrevivência do mais apto" do sociólogo Herbert Spencer, aquele querido dos barões gatunos. Spencer, por sua vez, ficou impressionado pelo quanto as forças que guiavam a seleção natural na Origem das Espécies combinavam com suas próprias teorias econômicas laissez-faire. A competição por recursos, o cálculo racional da vantagem, e a extinção gradual dos fracos foram tomadas como sendo as diretivas primárias do universo.

As apostas desta nova visão da natureza como o teatro de uma luta brutal pela existência eram altas, e objeções foram registradas bem cedo. Um escola alternativa de Darwinismo emergiu na Rússia enfatizando a cooperação, não a competição, como a condutora da mudança evolutiva. Em 1902 está abordagem encontrou uma voz em um livro popular, Ajuda Mútua: Um fator de Evolução, do naturalista e panfletista anarquista revolucionário Peter Kropotkin. Em uma réplica explícita aos Darwinistas sociais, Kropotkin argumentava que toda a base teórica para o Darwinismo Social estava errada: aquelas espécies que cooperam mais eficientemente tendem a ser as mais competitivas no longo prazo. Kropotkin, nascido príncipe (ele renunciou a seu título enquanto rapaz), passou muitos anos na Sibéria como naturalista e explorador antes de ser preso por agitação revolucionária, escapar, e fugir para Londres. Ajuda Mútua cresceu a partir de uma série de ensaios escritos em resposta a Thomas Henry Huxley, um renomado Darwinista Social, e resumia o entendimento Russo da época, que era de que, ao passo que a competição era, sem dúvida, um fator que guiava a evolução tanto natural quanto social, o papel da cooperação era, em última análise, decisivo.

O desafio russo foi levado bastante a sério na biologia do século XX - particularmente entre a emergente subdisciplina da psicologia evolucionária - mesmo que fosse raramente mencionado por nome. Em vez disso, veio a ser subsumido sob o mais amplo "problema do altruísmo" - outra frase emprestada ds economistas, e uma que transborda em argumentos entre teórics da "escolha racional" nas ciências sociais. Esta era a questão que já perturbava Darwin: Por que os animais jamais deveriam sacrificar sua vantagem individual pelos outros? Porque ninguém pode negar que às vezes eles o fazem. Por que um animal gregário atrairia atenção potencialmente letal para si mesmo ao alertar seus companheiros que um predador está vindo? Por que abelhas operárias se matariam para proteger sua colmeia? Se promover uma explicação científica de qualquer comportamento significa atribuir motivos racionais e maximizadores, então o que, precisamente, uma abelha camicaze estava tentando maximizar?

Tods nós sabemos a resposta eventual, que a descoberta dos genes tornou possível. Os animais estavam simplesmente tentando maximizar a propagação de seus próprios códigos genéticos. Curiosamente, esta visão - que eventualmente veio a ser referida como neo-Darwinismo - foi desenvolvida largamente por figuras que se consideravam radicais de um tipo ou de outro. Jack Haldane, um biólogo marxista, já estava tentando incomodar moralistas nos anos 1930, gracejando que, como qualquer entidade biológica, ele estaria feliz em sacrificar sua vida por "dois irmãos ou oito primos". A epítome desta linha de pensamento veio com o livro O Gene Egoísta do ateu militante Richard Dawkins - uma obra que insistia que todas as entidades biológicas eram melhor concebidas como "robôs desajeitados", programados por códigos genéticos que, por alguma razão que ninguém podia explicar bem, agiam como "gangsters bem sucedidos de Chicago", expandindo impiedosamente seu território em um desejo interminável de propagar a si mesmos. Tais descrições foram tipicamente qualificadas por observações como "Claro, isto é apenas uma metáfora, genes não querem ou fazem nada de fato". Mas na verdade, neo-Darwinistas foram praticamente guiads até suas conclusões por sua suposição inicial: de que a ciência demanda um explicação racional, que isto significa atribuir motivos racionais a todo comportamento, e que uma motivação verdadeiramente racional pode ser apenas uma que, se observada em humanos, seria normalmente descrita como egoísmo ou ganância. Como resultado, neo-Darwinistas foram ainda mais longe do que a variedade Vitoriana. Se Darwinistas Sociais da velha guarda como Herbert Spencer viam a natureza como um mercado, embora um extraordinariamente cruel, a nova versão era completamente capitalista. Neo-Darwinistas assumiam não apenas uma luta pela sobrevivência, mas um universo de cálculo racional guiado por um imperativo aparentemente irracional ao crescimento ilimitado.

Isto, no entanto, é como o desafio russo foi entendido. O real argumento de Kropotkin é bem mais interessante. Muito dele, por exemplo, está preocupado com como a cooperação animal frequentemente não tem nada a ver com sobrevivência ou reprodução, mas é uma forma de prazer em si mesma. "Alçar voo em bandos meramente pelo prazer é bastante comum entre todos os tipos de pássaros", ele escreve. Kropotkin multiplica exemplos de brincadeiras sociais: pares de urubus girando em círculos para seu próprio entretenimento, lebres tão ansiosas por boxear com outras espécies que ocasionalmente (e imprudentemente) se aproximam de raposas, bandos de pássaros realizando manobras em estilo militar, bandos de esquilos se reunindo para brigar e jogos similares:

Sabemos atualmente que todos os animais, começando com as formigas, passando pelos pássaros, e terminando com os mais elevados mamíferos, gostam de brincadeiras, brigas, correr atrás uns dos outros, tentar capturar uns aos outros, provocar uns aos outros, e assim por diante. E, ao passo que muitas brincadeiras são, por assim dizer, uma escola para o comportamento apropriado dos jovens na vida madura, há outras que, a parte de seus propósitos utilitários, são, junto com dançar e cantar, meras manifestações de um excesso de forças - "a alegria da vida", e um desejo de se comunicar de uma forma ou de outra com outros indivíduos da mesma ou de outras espécies - em suma, uma manifestação da sociabilidade propriamente dita, que é uma característica distintiva de todo o mundo animal.

Exercitar suas capacidades em toda sua extensão é ter prazer em sua própria existência, e com criaturas sociáveis, tais prazeres são proporcionalmente magnificados quando desempenhados em companhia. Da perspectiva russa, isto não precisa ser explicado. É simplesmente o que a vida é. Não temos que explicar por que criaturas desejam estar vivas. A vida é um fim em si mesma. E se no que estar vivo realmente consiste é em ter poderes - correr, pular, lutar, voar pelo ar - então certamente o exercício de tais poderes enquanto um fim em si mesmo não tem que ser explicado tampouco. É apenas um extensão do mesmo princípio.

Friedrich Schiller já tinha argumentado em 1795 que era precisamente na brincadeira que encontramos as origens da auto-consciência e, consequentemente, da liberdade e, consequentemente, da moralidade. "O homem brinca apenas quando ele é, no sentido completo da palavra, um homem", Schiller escreveu em seu Cartas Sobre a Educação Estética do Homem, "e ele é completamente um Homem apenas quando ele está brincando". Se é assim, e se Kropotkin estava certo, então vislumbres de liberdade, ou mesmo de vida moral, começam a aparecer em todos os lugares ao nosso redor.

É dificilmente surpreendente, então, que este aspecto do argumento de Kropotkin tenha sido ignorado pels neo-Darwinistas. Ao contrário do "problema do altruísmo", a cooperação por prazer, enquanto um fim em si mesma, simplesmente não poderia ser recuperada para propósitos ideológicos. Na verdade, a versão da luta pela existência que emergiu ao longo do século XX tinha ainda menos espaço para a brincadeira que a antiga versão Vitoriana. O próprio Herbert Spencer não tinha qualquer problema com a ideia da brincadeira animal enquanto sem propósito, um mero gozo de energia excedente. Assim como um industrialista ou vendedor de sucesso poderia ir pra casa e jogar um bom jogo de cribbage ou de polo, por que aqueles animais que foram bem sucedidos na luta pela existência não poderiam também se divertir um pouco? Mas na nova versão de evolução, completamente capitalista, em que o impulso para a acumulação não tinha quaisquer limites, a vida não era mais um fim em si mesma, mas um mero instrumento para a propagação de sequências de DNA - e assim a própria existência da brincadeira seria algo como um escândalo.

Por Que Eu?


Não é apenas que cientistas estão relutantes em seguir um caminho que poderia levá-los a ver a brincadeira - e, portanto, as sementes da auto-consciência, da liberdade, e da vida moral - entre animais. Muits estão achando cada vez mais difícil apresentar justificativas para atribuir quaisquer destas coisas mesmo a seres humanos. Uma vez que você reduz todos os seres vivos ao equivalente de agentes de mercado, máquinas de cálculo racional tentando propagar seu código genético, você aceita que não apenas as células que constituem nossos corpos, mas quaisquer seres que tenham sido nossos ancestrais imediatos, careciam de qualquer coisa sequer remotamente parecida com auto-consciência, liberdade, ou vida moral - o que torna difícil entender como ou por que a consciência (uma mente, uma alma) poderia jamais ter evoluído em primeiro lugar.

O filósofo americano Daniel Dennett coloca o problema de forma bastante lúcida. Tome as lagostas, ele argumenta - elas são apenas robôs. Lagostas conseguem se virar sem qualquer senso que seja de eu. Você não pode perguntar como é ser uma lagosta. Não é como qualquer coisa. Elas não tem nada que sequer lembre consciência; elas são máquinas. Mas se isto é assim, Dannett argumenta, então o mesmo deve ser assumido para toda a escala evolutiva de complexidade, desde as células vivas que constituem nossos corpos a tais criaturas elaboradas como macacos e elefantes, que, apesar de suas qualidades aparentemente semelhantes às humanas, não se pode provar que pensem sobre o que fazem. Isto é, até que, de repente, Dennett chega aos humanos, que - embora eles estejam certamente planando por aí no piloto automático pelo menos 95 por cento do tempo - não obstante, realmente parecem ter este "eu", este ego consciente enxertado no topo de si, que ocasionalmente aparece para tomar conhecimento de supervisão, intervindo para dizer ao sistema para que procure um novo emprego, pare de fumar, ou escreva um artigo acadêmico sobre as origens da consciência. Na formulação de Dannett,

Sim, nós temos uma alma. Mas ela é feita de muitos robôs minúsculos. De alguma forma, os trilhões de células robóticas (e sem consciência) que compõem nossos corpos organizam a si mesmas em sistemas interativos que sustentam as atividades tradicionalmente alocadas à alma, ao ego ou eu. Mas uma vez que já concedemos que simples robôs são inconscientes (se torradeiras e termostatos e telefones são inconscientes), por que times de tais robôs não poderiam fazer seus projetos mais requintados sem ter de me compôr? Se o sistema imunológico tem uma mente própria, e o circuito de coordenação olho-mão que colhe frutos tem uma mente própria, por que se preocupar em criar uma super-mente para supervisionar tudo isto?

A resposta do próprio Dannett não é particularmente convincente: ele sugere que desenvolvemos consciência para que possamos mentir, o que nos dá uma vantagem evolutiva. (Se é assim, as raposas não seriam conscientes também?) Mas a questão fica mais difícil em uma ordem de magnitude quando você pergunta como acontece - o "problema difícil da consciência", como David Chalmers a chama. Como células e sistemas aparentemente robóticos se combinam de tal forma quanto a ter experiências qualitativas: sentir umidade, saborear vinho, adorar cumbia, mas ser indiferente à salsa? Algumas cientistas são honestas o suficiente para admitir que não têm a menor ideia de como explicar experiências como estas, e suspeitam que jamais terão.

O(s) Elétron(s) Dança(m)?


Há uma saída para o dilema, e o primeiro passo é considerar que nosso ponto de partida poderia estar errado. Reconsidere a lagosta. Lagostas tem uma reputação muito ruim entre filósofs, que frequentemente as apresentam como exemplos de criaturas puramente irracionais e insensíveis. Presumivelmente isto é porque lagostas são o único animal que a maioria ds filósfs já matou com suas próprias mãos antes de comer. É desagradável jogar uma criatura se debatendo em uma panela de água fervente; precisa-se ser capaz de dizer a si mesme que a lagosta não está realmente sentido. (A única exceção a este padrão parece ser, por alguma razão, a França, onde Gérard de Nerval costumava levar uma lagosta de estimação para passear com uma coleira e onde Jean-Paul Sartre a certa altura se tornou eroticamente obcecado com lagostas depois de tomar mescalina demais.) Mas na verdade, a observação científica revelou que mesmo lagostas se envolvem em algumas formas de brincadeira - manipular objetos, por exemplo, possivelmente apenas pelo prazer de fazê-lo. Se este é o caso, chamar tais criaturas de "robôs" seria podar o significado da palavra "robô". Máquinas não brincam. Mas se criaturas vivas não são robôs afinal, muitas destas questões aparentemente espinhosas instantaneamente se dissolvem.

O que aconteceria se procedêssemos a partir da perspectiva reversa e concordássemos em tratar a brincadeira não como uma anomalia peculiar, mas como nosso ponto de partida, um princípio já presente não apenas em lagostas e, de fato, em todas as criaturas vivas, mas também em todo nível em que encontramos o que físics, químics e biólogs chamam de "sistemas auto-organizados"?

Isso não é de longe tão louco quanto poderia soar.

Filósofos da ciência, ante o enigma de como a vida poderia emergir da matéria morta ou como seres conscientes poderiam evoluir de micróbios, desenvolveram dois tipos de explicações.

A primeira consiste do que é chamado de emergentismo. O argumento aqui é que, uma vez que um certo nível de complexidade é alcançado, há um tipo de salto qualitativo em que tipos completamente novos de leis físicas podem "emergir" - que têm como premissa o que veio antes, mas não podem ser reduzidas a isso. Desta maneira, as leis da química podem ser ditas emergir da física: as leis da química pressupõem as leis da física, mas não podem ser simplesmente reduzidas a elas. Da mesma maneira, as leis da biologia emergem da química: obviamente precisa-se entender os componentes químicos de um peixe para entender como ele nada, mas os componentes químicos nunca fornecerão uma explicação completa. Da mesma maneira, a mente humana pode ser dita ser emergente das células que a constituem.

Aquels que mantém a segunda posição, usualmente chamada de panpsiquismo ou panexperimentalismo, concordam que tudo isto pode ser verdadeiro, mas argumentam que a emergência não é suficiente. Como o filósofo britânico Galen Strawson recentemente colocou, imaginar que pode-se viajar da matéria insensível para um ser capaz de discutir a existência de matéria insensível em meros dois pulos é simplesmente fazer a emergência realizar trabalho demais. Algo tem que estar já lá, em cada nível de existência material, mesmo aquele de partículas subatômicas - algo, não importa o quão mínimo e embriônico, que faça um pouco das coisas que estamos acostumados a pensar que a vida (e mesmo a mente) fazem - a fim de que algo seja organizado em níveis cada vez mais complexos para eventualmente produzir seres auto-conscientes. Este "algo" poderia ser muito mínimo, de fato: algum senso muito rudimentar de responsividade a seu ambiente, algo como antecipação, algo como memória. Não importa o quão rudimentar, teria que existir para que sistemas auto-organizados como átomos ou moléculas se auto-organizassem em primeiro lugar.

Todos os tipos de questões estão em jogo no debate, incluindo o venerável problema do livre arbítrio. Como inúmers adolescentes já ponderaram - frequentemente quando chapads e contemplando os mistérios do universo - se os movimentos das partículas que constituem nossos cérebro já estão determinados pelas leis naturais, então como podemos dizer que temos livre arbítrio? A resposta padrão é que sabemos desde Heisenberg que os movimentos de partículas atômicas não são pré-determinados; a física quântica pode prever para quais posições os elétron, por exemplo, tenderão a pular, no agregado, em uma dada situação, mas é impossível prever em que direção qualquer elétron em particular pulará em qualquer instância particular. Problema resolvido.

Exceto que não realmente - algo ainda está faltando. Se tudo que isso significa é que as partículas que constituem nossos cérebros pulam aleatoriamente, ainda se teria que imaginar alguma entidade imaterial, metafísica ("mente") que intervém para guiar os neurônios em direções não aleatórias. Mas isso seria circular: você precisaria já ter uma mente para fazer seu cérebro agir como uma mente.

Se estes movimentos não são aleatórios, em contraste, você pode pelo menos começar a pensar sobre uma explicação material. E a presença de infinitas formas de auto-organização na natureza - estruturas que mantém a si mesmas em equilíbrio dentro de seus ambientes, desde campos eletromagnéticos a processos de cristalização - realmente dão a panpsiquistas uma boa quantidade material com o que trabalhar. Verdade, els argumentam, você pode insistir que todas estas entidades devem ou simplesmente estar "obedecendo" leis naturais (leis cuja existência não precisa ela mesma ser explicada) ou apenas se movendo de forma completamente aleatória... mas se você o fizer, realmente é apenas porque você decidiu que esta é a única maneira que você está disposte a olha para isso. E deixa o fato de que você tem uma mente capaz de fazer tais decisões um completo mistério.

É verdade, esta abordagem sempre foi a posição minoritária. Durante muito do século XX, ela foi colocada de lado completamente. É fácil o bastante de zombar dela. ("Espere, você não está seriamente sugerindo que mesas podem pensar?" Não realmente, ninguém está sugerindo isso; o argumento é que aqueles elementos auto-organizantes que constituem mesas, tais como átomos, evidenciam formas extremamente simples das qualidades que, em um nível exponencialmente mais complexo, nós consideramos pensamento.) Mas em anos recentes, especialmente com recém descoberta popularidade, em alguns círculos científicos, das ideias de filósofos como Charles Sanders Peirce (1839-1914) e Alfred North Whitehead (1861-1947), começamos a ver algo como um renascimento.

Curiosamente, são em grande parte físics que se provaram receptivs a tais ideias. (Matemátics também - talvez pouco surpreendentemente, uma vez que os próprios Perice e Whitehead ambos começaram suas carreiras como matemáticos.) Físics são criaturas mais brincalhonas e menos tacanhas que, digamos, biólogs - parcialmente, sem dúvida, porque els raramente têm que lutar com fundamentalistas religioses contestando as leis da física. Els são poetas do mundo científico. Se uma pessoa já está disposta a adotar objetos de treze dimensões ou um número infinito de universos alternativos, ou casualmente sugerir que 95 por cento do universo é feito de energia e matéria escuras sobre cujas propriedades não sabemos nada, talvez não seja muito um salto também contemplar a possibilidade de que partículas subatômicas tenham "livre arbítrio" ou mesmo experiências. E, de fato, a existência de liberdade no nível subatômico é atualmente uma questão acalorada de debate.

É significativo dizer que um elétron "escolhe" saltar da maneira que faz? Obviamente, não há qualquer maneira de provar isso. A única evidência que poderíamos ter (que não podemos prever o que ele vai fazer), nós já temos. Mas dificilmente é decisiva. Ainda assim, se se quer uma explicação consistentemente materialista do mundo - isto é, se não se deseja tratar a mente como alguma entidade sobrenatural imposta ao mundo material, mas antes como simplesmente uma organização mais complexa dos processos que já estão acontecendo, em cada nível da realidade material - então faz sentido que algo pelo menos um pouco parecido com intencionalidade, algo pelo menos parecido com experiência, algo pelo menos um pouco parecido com liberdade, teria que existir em cada nível da realidade física também.

Por que a maioria de nós, então, imediatamente recua diante de tais conclusões? Por que elas parecem loucas e não científicas? Ou, mais direito ao ponto, por que estamos perfeitamente disposts a atribuir agência a uma fita de DNA (por mais "metaforicamente" que seja), mas consideramos absurdo fazer o mesmo com um elétron, um floco de neve, ou um campo eletromagnético coerente? A resposta, parece, é porque é praticamente impossível atribuir auto-interesse a um floco de neve. Se convencemos a nós mesmo que a explicação racional da ação pode consistir apenas de se tratar a ação como se houvesse algum tipo de cálculo egoísta por trás dela, então, por essa definição, em todos esses níveis, explicações racionais não podem ser encontradas. Ao contrário de uma molécula de DNA, que podemos pelo menos fingir que está perseguindo algum tipo de projeto estilo gangster de auto-engrandecimento impiedoso, um elétron simplesmente não tem um interesse material a perseguir, nem mesmo sobrevivência. Ele não está em qualquer sentido competindo com outros elétrons. Se um elétron está agindo livremente - se ele, como Richard Feynman supostamente disse, "faz qualquer coisa que gostar" - ele pode apenas estar agindo livremente como um fim em si mesmo. O que significaria que nas próprias fundações da realidade física, encontramos a liberdade por causa de si mesma - o que também significa que encontramos a forma mais rudimentar de brincadeira.

Nade com os Peixes


Imaginemos um princípio. Chame-o de princípio da liberdade - ou, uma vez que construções Latinas tendem a carregar mais peso em tais assuntos, chame-o de princípio da liberdade lúdica. Vamos imaginar que ele mantenha que o livre exercício dos poderes e capacidades mais complexos de uma entidade vai, sob certas circunstâncias pelo menos, tender a se tornar um fim em si mesmo. Obviamente não seria o único princípio ativo na natureza. Outros puxam em outras direções. Mas, se nada mais, ajudaria a explicar o que nos realmente observamos, tal como por que, apesar da segunda lei da termodinâmica, o universo parece estar ficando mais, em vez de menos, complexo. Psicólogs evolucionáries alegam que podem explicar - como o título de um livro recente diz - "por que o sexo é divertido". O que els não podem explicar é por que a diversão é divertida. Isto poderia.

Eu não nego que o que eu apresentei até aqui é uma simplificação selvagem de questões muito complicadas. Eu não estou sequer dizendo que a posição que estou sugerindo aqui - que há um princípio da brincadeira na base de toda a realidade física - é necessariamente verdadeiro. Eu apenas insistira que tal perspectiva é pelo menos tão plausível quanto as especulações estranhamente inconsistentes que atualmente se passam por ortodoxia, em que um universo sem mente e robótico repentinamente produz poetas e filósofs do nada. Nem, creio eu, ver a brincadeira como um princípio da natureza necessariamente significa adotar qualquer tipo de visão utópica condescendente. O princípio da brincadeira pode ajudar a explicar por que o sexo é divertido, mas pode também explicar por que a crueldade é divertida. (Como qualquer pessoa que tenha assistido a um gato brincando com um rato pode atestar, muito da brincadeira animal não é particularmente legal.) Mas nos dá base para pensar de outro modo o mundo a nosso redor.

Anos atrás, quando eu lecionava em Yale, às vezes eu distribuiria uma leitura contendo uma famosa história Taoista. Eu oferecia um "A" automático para qualquer estudante que pudesse me dizer por que a última linha fazia sentido. (Ninguém jamais conseguiu.)

Zhuangzi e Huizi estavam passeando por uma ponte sobre o rio Hao, quando o primeiro observou, "Veja como os peixinhos se atiram por entre as pedras! Assim é a felicidade dos peixes."

"Você não sendo um peixe", disse Huizi, "como você pode saber o que faz um peixe feliz?"

"E você não sendo eu", disse Zhuangzi, "como você pode saber que eu não sei o que faz peixes felizes?"

"Se eu, não sendo você, não posso saber o que você sabe", respondeu Huizi, "não se segue deste próprio fato que você, não sendo um peixe, não pode saber o que faz peixes felizes?"

"Vamos voltar", disse Zhuangzi, "a sua pergunta original. Você me perguntou como eu sabia o que faz peixes felizes. O próprio fato de que você me perguntou mostra que você sabia que eu sabia - como de fato eu sabia, a partir de meus próprios sentimentos sobre esta ponte."

A anedota é usualmente tomada como uma confrontação entre duas abordagens irreconciliáveis do mundo: o lógico versus o místico. Mas se isso é verdade, então por que Zhuangzi, que a escreveu, mostra a si mesmo sendo derrotado por seu amigo lógico?

Após pensar sobre a história por anos, me caiu a ficha de que esse era todo o ponto. Por todos os relatos, Zhuangzi e Huizi eram os melhores dos amigos. Eles gostavam de passar horas discutindo assim. Certamente, era a isso que Zhuangzi estava realmente tentando chegar. Podemos, cada um, entender o que o outro está sentindo porque, discutindo sobre os peixes, estamos fazendo exatamente o que os peixes estão fazendo: nos divertindo, fazendo algo que fazemos bem pelo puro prazer de fazê-lo. Nos envolvendo em uma forma de brincadeira. O próprio fato de que você se sentiu compelido a me bater em um argumento, e estava tão feliz em ser capaz de fazê-lo, mostra que a premissa que você estava argumentando deve ser falsa. Uma vez que mesmo filósofs são motivads primariamente por tais prazeres, pelo exercício de seus mais elevados poderes simplesmente pela graça de fazê-lo, então certamente este é um princípio que existe em todo nível da natureza - que é por que eu poderia espontaneamente identificá-lo, também, em peixes.

Zhuangzi estava certo. Assim como June Thunderstorm. Nossas mentes são apenas uma parte da natureza. Podemos entender a felicidade dos peixes - ou formigas, ou lagartas - porque o que nos leva a pensar e argumentar sobre tais questões é, em última análise, exatamente a mesma coisa.

Agora, isso não foi divertido?

quarta-feira, 18 de março de 2015

Um FAQ Anarquista: Seção G - O anarquismo individualista é capitalista? - Introdução

Um FAQ Anarquista:
Seção G - O anarquismo individualista é capitalista?


A resposta curta é, não, ele não é. Enquanto uma tendência diversa, anarquistas individualistas se opunham à exploração do trabalho, a todas as formas de rendimentos não trabalhistas (tais como lucros, juros e aluguéis) assim como aos direitos de propriedade capitalistas (particularmente sobre a terra). Embora visassem um sistema de livre mercado, consideravam o capitalismo laissez-faire como embasado em diversos tipos de monopólios de classe impostos pelo estado que garantiam que o trabalho fosse sujeitado ao governo, à dominação e à exploração pelo capital. Como tal, ele é profundamente anti-capitalista e muits anarquistas individualistas, incluindo seu protagonista Benjamin Tucker, explicitamente se chamavam de socialistas (de fato, Tucker frequentemente se referia a sua teoria como "Socialismo-Anárquico").


Assim, nesta seção de nosso FAQ anarquista, indicamos por que anarquistas individualistas não podem ser classificads como "ancestrais" ds falses libertáries da escola "anarco"-capitalista. Em vez disso, devem ser classificads como socialistas libertáries devido a sua oposição à exploração, sua crítica dos direitos de propriedade capitalistas e sua preocupação com a igualdade, ainda que estejam na ala liberal do pensamento anarquista. Além disso, embora tods quisessem ter uma economia em que todos os rendimentos fossem embasados no trabalho, muits também se opunham ao trabalho assalariado, isto é, a situação em que uma pessoa vende seu trabalho a outra, em vez do produto desse trabalho (uma posição que, argumentamos, suas ideias implicam logicamente). Então, ao passo que algumas de suas ideias realmente coincidam com aquelas da escola "anarco"-capitalista, els não são capitalistas, não mais do que a coincidência entre suas ideias e o anarco-comunismo lhes tornam comunistas.


Neste contextos, a criação do "anarco"-capitalismo pode ser considerada como mais uma tática de capitalistas para reforçar a percepção do público de que não há alternativas viáveis ao capitalismo, isto, é, afirmando que "até mesmo o anarquismo implica em capitalismo". A fim de justificar esta afirmação, els pesquisaram a história do anarquismo em um esforço de encontrar alguma linha no movimento que possa ser usada para este propósito. Pensam que, com o anarquismo individualista, encontraram tal linha. No entanto, tal apropriação requer ignorar ou rejeitar sistematicamente aspectos chave do anarquismo individualista (que, claro, a direita "libertária" ignora). Um tanto ironicamente, esta tentativa por parte de "libertáries" de direita de excluir o anarquismo individualista do socialismo encontra paralelo em uma tentativa anterior, por parte de socialistas estatistas, de fazer o mesmo. Tucker furiosamente refutou tais tentativas em um artigo intitulado "Socialism and the Lexicographers"NT01, argumentando que "os Socialistas Anárquicos não devem ser despojados de metade de seu título pelo mera sentença do último lexicógrafo". [Instead of a Book, p. 385]


Não obstante, em individualistas encontramos o anarquismo chagando o mais próximo do liberalismo "clássico" e sendo influenciado pelas ideias de Herbert Spencer, um antepassado do capitalismo "libertário" (da variedade de estado mínimo). Como Kropotkin resumiu, suas ideias eram "uma combinação daquelas de Proudhon com aquelas de Herbert Spencer". [Anarchism, p.296] O que o "anarco"-capitalismo está tentando é ignorar a influência de Proudhon (isto é, o aspecto socialista de suas teorias) o que deixa apenas Spencer, que era um liberal de direita. Reduzir o anarquismo individualista assim é destruir o que o torna uma teoria política e um movimento únicos. Embora ambos Kropotkin e Tucker elogiassem Spencer enquanto um filósofo sintético e uma cientista social, eles estavam ambos penosamente cientes das limitações de suas ideias sócio-políticas. Tucker considerava seus ataques sobre todas as formas de socialismo (incluindo Proudhon) como autoritários como sendo, na melhor das hipóteses, mal informada ou, na pior, desonesta. Ele também reconhecia a natureza apologética e limitada de seus ataques à intervenção estatal, notando que "em meio às suas inumeráveis ilustrações... dos males da legislação, ele, em toda instância, cita alguma lei aprovada ostensivamente, pelo menos, para proteger o trabalho, aliviar o sofrimento, ou promover o bem-estar do povo. Mas nem uma vez ele chama atenção para os males bem mais fatais e profundos surgidos das inúmeras leis criando privilégio e sustentando o monopólio". Sem surpresa, ele considerava Spencer como um "herói da classe capitalista". [citado por James J. Martin, Men Against the State, p. 240] Assim como discutiremos na seção G.3, é provável que ele tivesse tirado a mesma conclusão sobre o "anarco"-capitalismo.


Isto não significa que o segmento da maioria dentro do movimento anarquista seja acrítico sobre o anarquismo individualista. Longe disso! Anarquistas sociais argumentaram que esta influência de ideias não anarquistas significa que, embora sua "crítica do Estado seja bastante minuciosa, e [sua] defesa dos direitos do indivíduo seja bastante poderosa", assim como Spencer, ela "abre... o caminho para reconstruir sob o título de 'defesa' todas as funções do Estado". [Kropotkin, Op. Cit., p. 297] Isto flui, argumentam anarquistas sociais, do impacto dos princípios liberais e levou alguns anarquistas individualistas, como Benjamin Tucker, a apoiar a teoria do contrato em nome da liberdade, sem estarem cientes das relações sociais autoritárias que poderiam ser implicadas por ela, como podem ser vistas sob o capitalismo (outrs anarquistas individualistas estavam bem mais cientes desta contradição, como veremos). Portanto, anarquistas sociais tendem a pensar o anarquismo individualista como uma forma inconsistente de anarquismo, uma que poderia se tornar consistente simplesmente aplicando logicamente seus próprios princípios (vide seção G.4). De sua parte, muits anarquistas individualistas simplesmente negaram que anarquistas sociais fossem anarquistas, uma posição que outrs anarquistas refutam (vide seção G.2). Como tal, esta seção também pode ser considerada, em parte, como uma continuação da discussão iniciada na seção A.3.


Poucs pensadors são completamente consistentes. Dados o anti-estatismo e o anti-capitalismo convictos de Tucker, é provável que, tivesse ele percebido as relações sociais autoritárias que a teoria do contrato tende a produzir (e a justificar) quando envolve empregar trabalho, ele teria modificado suas visões de tal maneira a eliminar a contradição (particularmente visto que contratos envolvendo trabalho assalariado contradizem diretamente seu apoio pelo "uso e ocupação"). É compreensível por que ele falhou em fazê-lo, no entanto, dado o contexto social em que viveu e agitou. Na América de Tucker, o auto-emprego ainda era uma possibilidade em larga escala (de fato, durante muito do século XIX, essa foi a forma dominante de atividade econômica). Suas reformas visavam tornar mais fácil para trabalhadors ganharem acesso tanto a terra quanto a maquinário, assim permitindo que trabalhadors assalariads se tornassem fazendeirs e artesãs independentes. Não é surpresa, portanto, que ele via o anarquismo individualista como uma sociedade de trabalhadors, não uma de capitalistas e trabalhadors. Além disso, como argumentaremos na seção G.4.1, seu amor pela liberdade e sua oposição à usura implicam logicamente em trabalho artesanal e cooperativo -- pessoas vendendo os produtos de seu trabalho, ao invés do trabalho em si -- que por si só implica em auto-gestionamento na produção (e na sociedade em geral), não em autoritarismo dentro do local de trabalho (esta era a conclusão de Proudhon, assim como a de Kropotkin). Não obstante, é esta inconsistência -- o aspecto não anarquista do anarquismo individualista -- que "libertáries" de direita, como Murray Rothbard selecionam e nela se concentram, ignorando o contexto anti-capitalista em que este aspecto do pensamento individualista existe. Como David Wieck apontou:


"Da história do pensamento e ação anarquista, Rothbard põe em evidência um único segmento, o segmento do individualismo, e define esse individualismo de uma maneira alheia mesmo ao espírito de um Max Stirner ou um Benjamin Tucker, cuja herança eu presumo que ele reclamaria -- para não dizer nada sobre quão alheia sua maneira é ao espírito de Godwin, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta, e as pessoas historicamente anônimas que, através de seus pensamentos e ação, tentaram dar ao anarquismo um significado vivo. Deste segmento, Rothbard fabrica mais uma ideologia burguesa." [Anarchist Justice, pp. 227-228]


É com isto em mente que discutimos as ideias de pessoas como Tucker. Como esta seção do FAQ indicará, mesmo em seu extremo mais liberal e individualista, o anarquismo era fundamentalmente anti-capitalista. Quaisquer conceitos que o "anarco"-capitalismo importe da tradição individualista ignoram tanto os fundamentos teóricos de suas ideias assim como o contexto social de auto-emprego e produção artesanal em que estes conceitos surgiram, assim transformando-os em algo radicalmente diferente do que era pretendido por quem o originou. Como discutimos na seção seção G.1.4, o contexto social em que o anarquismo individualista se desenvolveu é essencial para entender tanto sua política quanto suas limitações ("O anarquismo na América não é uma importação estrangeira, mas um produto das condições sociais deste país e suas tradições históricas", embora seja "verdadeiro que o anarquismo americano foi também influenciado mais tarde pelas ideias europeias". [Rudolf Rocker, Pioneers of American Freedom, p. 163]).


Dizendo isto, seria um erro sugerir (como alguns escritors fizeram) que o anarquismo individualista pode ser visto puramente em termos americanos. Embora entender a natureza da sociedade e da economia americanas na época seja essencial para entender o anarquismo individualista, seria falso implicar que apenas o anarquismo individualista foi o produto das condições americanas e era aderido por americans, ao passo que o anarquismo social foi importado da Europa por imigrantes. Afinal, Albert e Lucy Parsons eram ambos americanos nativos, que se tornaram anarquistas-comunistas, enquanto Emma Goldman e Alexander Berkman apenas se tornaram anarquistas uma vez que chegaram à América. A nativa Voltairine de Cleyre se moveu do anarquismo individualista para o comunista. Josiah Warren pode ter nascido em Boston, mas desenvolveu seu anarquismo após suas experiências em uma comunidade experimental estabelecida pelo socialista galês Robert Owen (que, por sua vez, foi inspirado pelas ideias de William Godwin). Embora Warren e Proudhon possam ter desenvolvido suas ideias independentemente, libertáries americans ficaram cientes de Proudhon e outros socialistas da Europa já que jornais radicais tinham correspondentes na França durante a revolução de 1848 e traduções parciais de escritos radicais da Europa apareceram tão rapidamente quanto puderam ser transmitidos e traduzidos. Anarquistas individualistas como William Greene e Tucker foram fortemente influenciados pelas ideais de Proudhon e, assim, importaram aspectos do anarquismo europeu para o anarquismo individualista americano, ao passo que gente como E. Armand trouxe aspectos do anarquismo americano para o movimento europeu. Similarmente, tanto Spooner quanto Greene foram membros da Primeira Internacional, enquanto anarquistas individualistas como Joseph Labadie e Dyer Lum foram organizadores do sindicato Knights of Labour junto com Albert e Lucy Parsons. Lum mais tarde se juntou a International Working People's Association (IWPA), inspirada pelo anarco-comunismo, e editou seu periódico em língua inglesa (o Alarm) quando Parsons foi preso e esperava execução. Todas as formas de anarquismo foram, em outras palavras, uma combinação de influências europeias e americanas, tanto em termos de ideias quanto em termos de experiências e lutas e até mesmo organizações sociais.


Embora a perseguição a vermelhes e clamores de "anti-americano" possam inclinar algumas pessoas a enfatizar o aspecto "nativo" do anarquismo individualista (particularmente aquelas buscando se apropriar dessa tendencia para seus próprios fins), ambas as alas do movimento nos EUA tiveram membros, aspectos e influências nativas e estrangeiras (e, como Rocker observou, a "chamada civilização branca do continente [Americano] é o trabalho de imigrantes europeus". [Op. Cit., p. 163]. Embora ambos os lados tendessem a denunciar e atacar o outro (particularmente após os eventos do Haymarket), eles tinham mais em comum do que gente como Benjamin Tucker e Johann Most teriam estado preparados para admitir e cada tendência, em sua própria maneira, refletia aspectos da sociedade americana e da transformação drástica pela qual estava passando na época. Além disso, foram as mudanças na sociedade americana que levaram ao crescimento constante do anarquismo social e ao eclipsamento do anarquismo individualista da década de 1880 em diante. Embora tenha havido uma tendência de se enfatizar uma tendência individualista em descrições do anarquismo americano devido a suas características únicas, apenas aquelas pessoas "sem um conhecimento da história anarquista" pensaria "que os anarquistas individualistas eram o segmento maior do movimento anarquista nos E.U.A. na época. Nada poderia estar mais longe da verdade. O ramo coletivista do anarquismo era muito mais forte entre radicais e trabalhadores durante o final do século XIX e começo do século XX do que a linha individualista. Antes da Guerra Civil, o oposto seria verdadeiro". [Greg Hall, Social Anarchism, no. 30, pp. 90-91]


Nos anos 1880, o anarquismo social tinha provavelmente excedido o tamanho dos individualistas "caseiros" nos Estados Unidos. A IWPA tinha em torno de mil membros em seu auge, com talvez três vezes mais simpatizantes. [Paul Avrich, The Haymarket Tragedy, p. 83] Seus jornais tinham uma circulação agregada de mais de 30.000. [George Woodcock, Anarchism, p. 395] Em comparação, o jornal individualista Liberty "provavelmente nunca teve mais do que de 600 a 1000 assinantes, mas sem dúvidas era lido por mais do que isso". [Charles H. Hamilton, "Introduction", p. 1-19, Benjamin R. Tucker and the Champions of Liberty, Coughlin, Hamilton and Sullivan (eds.), p. 10] A repressão após o Haymarket cobrou seu preço e o progresso do anarquismo social foi prejudicado por uma década. No entanto "[n]a virada do século, o movimento anarquista na América tinha se tornado predominantemente comunista em orientação". [Paul Avrich, Anarchist Voices, p. 5] Como uma ironia adicional para aquelas pessoas que enfatizam a natureza individualista do anarquismo na América enquanto repudiam o anarquismo social como uma importação estrangeira, o primeiro jornal americano a usar o nome "An-archist" foi publicado em Boston em 1881 por anarquistas dentro do ramo social revolucionário do movimento. [Paul Avrich, The Haymarket Tragedy, p. 57] Igualmente irônico, dada a apropriação do termo pela direita americana, o primeiro jornal anarquista a usar o termo "libertário" (La Libertaire, Journal du Mouvement Social) foi publicado em Nova York entre 1858 e 1861 pelo anarquista-comunista francês Joseph Déjacque. [Max Nettlau, A Short History of Anarchism, pp. 75-6]


Tudo isso não é para sugerir que o anarquismo individualista não tem raízes americanas, nem que muitas de suas ideias e visões não foram significantemente moldadas pelas condições e desenvolvimentos sociais americanos. Longe disso! É simplesmente para enfatizar que ele não se desenvolveu em completo isolamento do anarquismo europeu durante a metade final do século XIX e que o anarquismo social que lhe ultrapassou ao final desse século também era um produto das condições americanas (neste caso, a transformação de uma sociedade pré-capitalista em uma capitalista). Em outras palavras, o surgimento do anarquismo comunista e o declínio do anarquismo individualista no final do século XIX refletia a sociedade americana tanto quanto o desenvolvimento do último em primeiro lugar. Assim, o surgimento do capitalismo na América significou o surgimento de um anarquismo mais adequado às condições sociais e às relações sociais produzidas por essa mudança. Sem surpresas, portanto, o anarquismo mutualista permanece a tendência minoritária no anarquismo americano até os dias de hoje com camaradas como Joe Peacott (vide seu panfleto Individualism Reconsidered), Kevin Carson (vide seu livro Studies in Mutualist Political Economy) e Shawn Wilbur (que laboriosamente colocou muitas obras inciais raras, individualistas e mutualistas, na internet) mantendo suas ideias vivas.


Então, assim como o anarquismo social, o anarquismo individualista se desenvolveu como uma resposta ao surgimento do capitalismo e à transformação da sociedade americana que isto produziu. Como uma acadêmica colocou, os "primeiros anarquistas, embora ferrenhamente individualistas, não entretinham uma inclinação para... o capitalismo. Antes, eles viam a si mesmos como socialistas opostos ao socialismo de estado de Karl Marx. Os anarquistas individualistas não viam qualquer contradição entre sua posição individualista e sua rejeição do capitalismo". Ela enfatiza que els eram "fervorosos anti-capitalistas" e criam que "os trabalhadores criavam valor através de seu trabalho, um valor apropriado pelos proprietários de empresas... Os anarquistas individualistas culpavam o capitalismo por criar condições de trabalho desumanas e por aumentar as desigualdades de riqueza. Seu auto-declarado 'socialismo' estava enraizado em sua firma crença na igualdade, material assim como legal". Isto, no entanto, não a impediu de afirmar que "anarco-capitalistas contemporâneos são descendentes de anarquistas individualistas do século XIX como Josiah Warren, Lysander Spooner, e Benjamin Tucker". [Susan Love Brown, pp. 99-128, "The Free Market as Salvation from Government", Meanings of the Market, James G. Carrier (ed.), p. 104, p. 107, p. 104 and p. 103] Sempre se pode confiar em acadêmics para ignorar a questão de quão relacionadas são duas teorias que diferem em questões chave tais como ser anti-capitalista ou não!


Desnecessário dizer que alguns "anarco"-capitalistas estão bem cientes do fato de que anarquistas individualistas eram extremamente hostis ao capitalismo, embora apoiassem o "livre mercado". Sem surpresas, els tendem a minimizar esta oposição, frequentemente argumentando que anarquistas que salientam as posições anti-capitalistas de pessoas como Tucker e Spooner estão lhes citando fora do contexto. A verdade é diferente. Na verdade, é o "anarco"-capitalista que tira as ideias de anarquistas individualistas fora do contexto tanto histórico quanto teórico. Isto pode ser visto no repúdio "anarco"-capitalista da "má" economia ds anarquistas individualistas, assim como a natureza da sociedade livre desejada por els.


É possível, sem dúvida, passar um pente fino através das muitas edições da Liberty, digamos, ou das obras do anarquismo individualista, para encontrar uns poucos comentários que podem ser usados para apoiar a afirmação de que o anarquismo não precisa implicar em socialismo. No entanto, alguns comentários dispersos aqui e ali dificilmente são uma base firme para ignorar o vasto volume de teoria anarquista e sua história enquanto um movimento. Isto é particularmente o caso quando aplicar este critério consistentemente significaria que o anarquismo comunista, por exemplo, seria excomungado do anarquismo simplesmente por causa das opiniões de alguns anarquistas individualistas. Igualmente, pode ser possível reunir todas as posições não anarquistas de anarquistas individualistas e, assim, construir uma ideologia que justificasse o trabalho assalariado, o monopólio da terra, a usura, direitos de propriedade intelectual, e assim por diante, mas tal ideologia não seria nada além do que uma zombaria do anarquismo individualista, distintamente em desacordo com seus espíritos e metas. Convenceria apenas aquelas pessoas ignorantes da tradição anarquista.


Não é um tributo apropriado a anarquistas individualistas que suas ideias estejam hoje sendo associadas com o capitalismo que tão claramente desprezavam e desejavam abolir. Como um Anarquista Individualista moderno argumento:


"É hora de anarquistas reconhecerem as valiosas contribuições da... teoria anarquista individualista e tirar proveito de suas ideias. Seria tanto fútil quanto criminoso deixá-la para libertários capitalistas, cujas alegações sobre Tucker e os demais pode ser feita apenas ignorando-se a violenta oposição que tinham à exploração capitalista e à 'livre iniciativa' monopolista apoiada pelo estado."[J.W. Baker, "Native American Anarchism", pp. 43-62, The Raven, vol. 10, no. 1, pp. 61-2]


Esperamos que esta seção do FAQ percorra algum caminho em explicar as ideias e contribuições do anarquismo individualista para uma nova geração de rebeldes. Dada a diversidade do anarquismo individualista, é difícil generalizar sobre ele (alguns estão mais próxims do liberalismo clássico do que outrs, por exemplo, ao passo que uns poucs abraçavam meios revolucionários de mudança, tais como Dyer Lum). No entanto, faremos nosso melhor para extrair os temas comuns do movimento, indicando em que certas pessoas diferiam de outras. Similarmente, existem diferenças distintas entre as formas americana e européia de mutualismo, independente do quanto Tucker invocasse o nome de Proudhon para justificar suas próprias interpretações do anarquismo e indicaremos estas (estas diferenças, pensamos, justificam chamar o ramo americano de anarquismo individualista em vez de mutualismo). Também buscaremos mostrar por que o anarquismo social rejeita o anarquismo individualista (e vice-versa) assim como dar uma avaliação crítica de ambas as posições. Dada a natureza diversa do anarquismo individualista, estamos certs de que não cobriremos todas as posições e indivíduos associados com ele, mas esperamos apresentar o suficiente para indicar por que gente como Tucker, Labadie, Yarros e Spooner merecem algo melhor do que serem reduzids a notas de rodapé em livros defendendo uma versão ainda mais extrema do capitalismo contra o que passaram suas vidas lutando.


[NT01] "Socialismo e os Lexicógrafos", em português