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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O Anarquismo de Mercado como Constitucionalismo


O Anarquismo de Mercado como Constitucionalismo

Um sistema legal é qualquer instituição ou conjunto de instituições, em uma dada sociedade, que fornece resolução de disputas de uma maneira sistemática e razoavelmente previsível. Ele o faz através do exercício de três funções: a judicial, a legislativa e a executiva. A função judicial, a adjudicação de disputas, é o cerne de qualquer sistema legal; as outras duas são ancilares a esta. A função legislativa é determinar as regras que governarão o processo de adjudicação (esta função pode ser mesclada à função judicial, como quando a jurisprudência surge através de precedentes, ou ela pode ser exercida separadamente), ao passo que a função executiva é assegurar a submissão (através de uma variedade de meios, que podem ou não incluir violência) ao processo adjudicativo e o cumprimento de seus vereditos. Um governo ou estado (para os presentes propósitos, eu usarei esses termos de maneira intercambiável) é qualquer organização que reivindica, e em grande parte efetua, um monopólio forçosamente mantido, dentro de um dado território geográfico, dessas funções legais e, em particular, do uso da força na função executiva.
Ora, a objeção anarquista de mercado ao governo é simplesmente uma extensão lógica da objeção libertária padrão a monopólios coercitivos em geral. Primeiro, de um ponto de vista moral, entre pessoas consideradas como iguais, não pode ser legítimo que alguns reivindiquem uma certa linha de trabalho como sua reserva privilegiada própria, da qual os outros devem ser forçosamente excluídos; não acreditamos mais no direito divino dos reis, e sobre nenhuma outra base tal desigualdade de direitos poderia ser justificada. Segundo, de um ponto de vista econômico, uma vez que monopólios ficam isolados da competição do mercado e mantém seus clientes à força, eles carecem tanto da informação quanto do incentivo para fornecer aos consumidores um serviço justo, eficiente e barato. O anarquista aceita estes argumentos e meramente pergunta por que eles deveriam se aplicar com menos força à provisão de serviços legais.



quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Autonomia Individual e Auto-Determinação

Autonomia Individual e Auto-Determinação


Resposta a Wayne Price. “Kevin Carson’s Revival of Individualist Anarchist Economic Theory”, Anarkismo.net, 30 nov. 2014.


O resumo geral de Wayne Price da minha abordagem em Estudos em Economia Política Mutualista (também disponível online) é bastante imparcial e justa (ao contrário de alguns outros, por exemplo, a crítica à Markets Not Capitalism, ed. por Charles Johnson and Gary Chartier, feita por Magpie Killjoy do Crimethinc - vide a réplica de William Gillis). Ele começa com uma espécie de elogio sobre minha análise do capitalismo nas duas primeiras seções do livro:


Kevin Carson está tentando ressuscitar a teoria econômica anarquista. Isto é interessante, porque a maior parte da economia política anarquista atual é especulação sobre uma economia pós-capitalista e pós-revolucionário - com o que ela se pareceria e como poderia funcionar. Há pouco ou nada de uma análise sobre como o capitalismo dos dias de hoje funciona. Para isso, a maioria dos anarquistas ou se apoiam em uma variedade da economia convencional (pró-capitalista) ou olham para aspectos do Marxismo.


E ele aceita - ao invés de estipular a contragosto - a natureza essencialmente não-capitalista do modelo de mercado que eu proponho.


Kevin Carson apresenta o anarquismo individualista como pró-mercado mas anti-capitalista e mesmo "socialista". Ele rejeita o programa "anarco-capitalista" de corporações capitalistas (com trabalhadores contratados por salários) mas sem um estado. Uma (hipotética) economia mutualista poderia incluir pequenas empresas, lojas, oficinas, cooperativas de consumidores e fazendas familiares. Em vez de trabalhadores contratados, as empresas seriam democraticamente administradas por seus membros (cooperativas de produtores). Os bancos seriam uniões de crédito (bancos cooperativos). Essas empresas todas concorreriam livremente no mercado aberto. Não haveria qualquer regulamentação estatal, ou sequer estado. A "justiça", ou pelo menos a paz civil, seria mantida através de arranjos em sua maior parte locais por parte de cidadãos armados.


Isso seria uma economia produtora de mercadorias, mas não capitalismo, mesmo para padrões Marxistas. Não haveria nenhuma classe separada de pessoas que seriam donas do capital, tampouco haveria uma classe especializada de trabalhadores sem propriedade que tivessem que se alugar para os capitalistas a fim de viver.


A bem da honestidade, eu deveria mencionar que a propriedade cooperativa de ativos produtivos em empresas multi-trabalhador não seria realmente obrigatória em meu modelo, tampouco a contratação de trabalho por salários seria proibida (como no sistema de David Ellerman, que automaticamente atribui a reclamação residual aos trabalhadores). Eu o vejo, sim, como uma abolição do "sistema salarial", no sentido de que o trabalho contratado não mais definiria estruturalmente o sistema como o faz no nosso. Com o acesso privilegiado da classe econômica dominante aos meios de produção abolido e removidas as barreiras legais que atualmente mantém a escassez artificial e as despesas dos meios de produção para as pessoas trabalhadoras, eu acredito que haveria muito menos trabalho assalariado, ele seria uma parte marginal do sistema e, onde ele de fato existisse, seria essencialmente não-explorador, na medida em que as deduções de renda, lucro e juros dos salários do trabalho decairiam a quase nada e o poder de barganha aumentado do trabalho daria aos trabalhadores uma voz muito mais forte sobre suas condições de trabalho. Mesmo com patrões e trabalho assalariado nominais, as empresas com empregados assalariados assumiriam, em grande parte, o caráter de facto de cooperativas auto-geridas, com o dono sendo pouco mais do que um co-trabalhador, cujo "lucro" equivale a um "salário de superintendência".


E, ao passo que expressa uma série de reservas menores ou maiores sobre tal modelo de mercado não-capitalista e cooperativista, Price está bastante disposto a tolerá-lo como um arranjo dentro de uma sociedade pós-estado pluralista.


Eu não teria objeções a alguma comuna ou região que experimentasse seu programa orientado ao mercado. Isto está de acordo com o pluralismo experimental de Errico Malatesta… e com o apoio do próprio Carson a uma "panarquia" pluralista.


Não obstante, a tradição do próprio Price se encontra com "o anarquismo socialista revolucionário de luta de classes de Bakunin, Kropotkin, Goldman e Makhno, os anarquistas comunistas e os anarquistas sindicalistas...".


A primeira crítica de Price ao meu modelo de mercado é que, embora seja não-capitalista, "não é uma visão social muito democrática".


Assumindo que funcionasse, os membros da comunidade não fariam decisões gerais sobre como desenvolver sua sociedade; isto seria decidido por empresas concorrentes respondendo ao mercado não controlado. Mesmo empresas democraticamente geridas não controlariam de fato seu próprio destino; isto seria determinado pelos sobes e desces do mercado externo.


Em resposta, eu primeiro notaria que mesmo os anarquistas coletivistas normalmente não celebram a tomada de decisão coletiva ou democrática como um bem por sua própria conta, mesmo quando nenhum acordo é necessário; em tais casos, a autonomia individual e a auto-determinação são um bem por si mesmas.


Na época em que eu escrevi Economia Política Mutualista, eu mal havia começado a investigar coisas como organização em rede, estigmergia e governança p2p. Desde então, estas coisas - que eu considero altamente democráticas - desempenharam um grande papel em definir minha concepção de democracia. Como eu argumentei em A Revolução Industrial Caseira (pt) (um argumento também central ao meu livro em progresso, The Desktop Regulatory State), se pensarmos sobre a democracia como aumento no grau em que nos aproximamos da unanimidade do consentimento, então o tipo de organização estigmérgica característico de grupos de desenvolvimento open source e da Wikipedia são a última palavra em democracia. Cada um dos projetos empreendidos tem o consentimento unânime de todos que participam dele. De fato, alguns Marxistas e comunistas libertários vêem o software open source como o cerne da futura sociedade comunista.


Segundo, se eu bem me lembro, eu pelo menos toquei na propriedade de recursos naturais enquanto propriedade comum em Estudos em Economia Política Mutualista. Se não, o tipo de gerenciamento de recursos de reserva comum sobre o qual Elinor Ostrom escreveu em Managing the Commons era definitivamente algo de que eu era a favor mesmo então. Então a produção e a determinação de preços de uma parcela considerável das matérias-primas consumidas pela comunidade maior estariam sujeitas à governança democrática.


Uma outra crítica, mais fundamental, é que eu ignoro a possibilidade de que os mercados, como tais, só possam existir com um estado.


Ele demonstra que o estado sempre interviu no mercado capitalista. Mas isto não prova que o mercado é possível sem o estado. Se qualquer coisa, pareceria demonstrar que uma economia de mercado exige um estado.


Se o estado criou o mercado, o mercado criou o estado. Um mercado competitivo e de troca de mercadorias coloca cada pessoa em conflito com todas as outras pessoas, cada firma competindo com todas as outras firmas. Ele encoraja o conflito, a miopia e o egoísmo. Ele requer uma instituição geral para manter a sociedade unida, para servir aos interesses gerais dos atores econômicos dominantes. Essa instituição só pode ser um estado.


Eu diria que aqui Price está ilegitimamente confundindo mercados, como tais, com a mediação da maior parte da atividade social através do nexo monetário. Eu admitidamente coloco menos ênfase nos mercados agora como um meio voluntário entre muitos para governar as relações econômicas do que eu o fazia na época em que escrevi Economia Política Mutualista. Estou muito mais próximo agora do que estava então de me ver como um "anarquista sem adjetivos". Eu vejo as trocas de mercado como um de tais meios, ao lado de economias sociais como da dádiva e o comunismo de unidades sociais primárias como projetos domiciliares multi-famílias, ocupas e comunas urbanas, complexos de famílias estendidas e similares. E, por causa da minha pesquisa subsequente em micromanufatura e produção alimentar em pequena escala, eu vejo uma grande parte das necessidades de consumo sendo produzidas eficientemente dentro de tais entidades comunistas, com o preço de mercado governando apenas entradas externas como matérias-primas. Mas mesmo em 2004, eu não usei os termos "livre mercado" ou "anarquista de mercado" no sentido de uma sociedade dominada pelo nexo monetário; antes, eu quis dizer com ele apenas uma sociedade que compreendesse a soma total de todos os meios de interação voluntária, livre associação e ajuda mútua - e da qual a troca de mercado não está excluída por definição.


Price também tem problemas com minha abordagem da mudança gradual sistêmica através da construção de contra-instituições, argumentando que tais instituições seriam marginais e tenderiam a ser cooptadas para uma divisão capitalista do trabalho, a menos que fossem incorporadas a um movimento insurrecionário de massa mais amplo para transformar a sociedade.


Eu tenho bastante mais a dizer sobre esta questão do que tinha em 2004. Da maneira em que o vejo, o modelo de transformação social baseado em movimentos insurrecionários de massa pressupõem a necessidade de atacar e conquistar instituições de alto comando como corporação e estado - uma "guerra de manobra" - para o propósito de ocupá-las e/ou desmantelá-las. Em suma, é um modelo da era industrial em que a massa é necessária por razões objetivas e materiais. Mas, embasado na minha pesquisa ao longo dos últimos 6-10 anos, eu acredito que mudanças na tecnologia de produção e de comunicação tornaram as antigas instituições-dinossauro da era industrial tecnicamente obsoletas e materialmente desnecessárias para o tipo de sociedade que queremos construir. Conforme as ferramentas de produção e a horticultura intensiva em solo se tornam radicalmente mais baratas em menores em escala e hiper-eficientes em seu uso de recursos, a propriedade concentrada da terra e do capital está se tornando cada vez menos um ponto de estrangulamento para a efetivação do controle sistêmico. As antigas forças estruturais como a escassez artificial e os custos de terra e capital estão perdendo seu poder de forçar a economia alternativa para dentro de uma divisão capitalista do trabalho. Em vez disso, a nova economia pós-capitalista está matando o capitalismo corporativo de fome. De fato, as correntes mais interessantes do comunismo libertário, como o modelo autonomista de Hardt e Negri em Commonwealth, sugerem um modelo de "êxodo" de produtores iguais, com base em recursos comuns, secedendo da antiga economia capitalista.


De maneira ainda mais fundamental, Price vê um mercado não-capitalista como inerentemente instável e com probabilidade de decair para o capitalismo.


Mesmo que fosse alcançado, eu duvido que o sistema anarquista individualista funcionaria por muito tempo. Competindo no mercado, seguindo a lei do valor, algumas firmas cooperativas se dariam melhor do que outras. Haveriam vencedores e perdedores. Os vencedores ficariam maiores e mais ricos, os perdedores faliriam. Um conjunto de trabalhadores desempregados se desenvolveria. Haveriam ciclos empresariais de expansões e recessões. A estratificação se desenvolveria dentro e entre as empresas. As cooperativas e famílias fazendeiras mais ficas dominariam as associações de "auto-defesa", que assumiriam o controle do policiamento. Um estado de facto emergiria.


Este argumento de "vencedores e perdedores" não é novo. O próprio Friedrich Engels o usou em Anti-Duhring, argumentando, contra a "teoria da força" de Duhring, que o capitalismo teria emergido espontaneamente a partir de um mercado pacífico mesmo sem a história de apreensão de terras e escravidão - "escrita em letras de sangue e fogo" - que Marx recontara no volume um do Capital. Eu a vi afirmada pela maioria dos anarquistas coletivistas, comunistas e sindicalistas com quem argumentais, incluindo Christian Siefkes (na lista de e-mail da Foundation for P2P Alternatives) e o editor da Anarcho-Syndicalist Review Jeff Stein (em comunicação privada).


Mesmo na época de Engels, eu acho que tais argumentos exageravam grandemente a probabilidade da riqueza se concentrar em algumas poucas mãos sob condições em que nenhuma escassez artificial garantida pelo estado existisse para permitir o crescimento da riqueza sobre riqueza através do juros composto e que o acesso generalizado à terra baldia permitisse que mesmo trabalhadores assalariados se sentassem fora do mercado de trabalho durante períodos prolongados. Mas independente disso, os argumentos pressupõem um modelo de tecnologia de produção intensiva em capital que está obsoleto agora. O barateamento radical e a efemerização da tecnologia estão tornando o próprio conceito de "vencedores" e "perdedores" sem sentido. Como eu argumentei em resposta a Siefkes em Revolução Industrial Caseira,


Uma resposta, no modelo de produção flexível, é que não há razão para se ter quaisquer perdedores permanentes. Primeiro de tudo, os custos fixos são tão baixos que é possível enfrentar um período lento indefinidamente. Segundo, na produção flexível com baixos custos fixos, na qual o maquinário básico para a produção é amplamente acessível e pode ser facilmente realocado para novos produtos, não há realmente nada como um "negócio" para se sair. Quanto menor a capitalização exigida para se entrar no mercado e quanto mais baixos os custos fixos a serem suportados em períodos de negócios lentos, tanto mais o mercado de trabalho assume um caráter em rede e orientado a projetos - como, por exemplo, a peer-production de software. No software livre, e em qualquer outra indústria em que o produtor médio produz é dono de um conjunto completo de ferramentas e a produção se concentra principalmente em projetos auto-geridos, a situação provavelmente é caracterizada não tanto pela entrada e saída de "firmas" discretas quanto por um equilíbrio constantemente alternante de projetos se fundindo e se dividindo, com agentes livres constantemente mudando de um para o outro...


Um outro ponto: em uma sociedade em que a maioria das pessoas é dona dos tetos sobre suas cabeças e conseguem atender à maior parte de suas necessidades de subsistência através da produção caseira, os trabalhadores que são donos das ferramentas de seu ofício podem se dar ao luxo de enfrentar períodos de negócios lentos e serem um tanto exigentes em esperar para serem contratados pelos projetos mais adequados às suas preferência. É bastante provável que, na medida em que alguma forma de emprego assalariado ainda existisse em uma economia livre, ela tomasse uma parte muito menor da economia total, o trabalho assalariado fosse mais difícil de encontrar e o emprego assalariado fosse muito mais marginal. Na medida em que esse emprego assalariado continuasse, ele seria a província de uma classe de trabalhadores itinerantes pegando trabalhos quando precisassem de um pouco de renda suplementar ou para constituir alguma poupança e então se aposentando por longos períodos para uma vida confortável vivendo de seus próprios domicílios. Este padrão - vivendo dos recursos comuns e aceitando o trabalho assalariado apenas quando fosse conveniente - era precisamento o que os Cercamentos tinham a intenção de erradicar.


Pela mesma razão, o medo padrão de "desemprego" na indústria de produção em massa no estilo americano é, na verdade, bastante vinculado ao local e em grande parte irrelevante para a manufatura flexível dos distritos industriais no estilo europeu. Em tais distritos e, em uma medida considerável, na indústria americana de vestuário, o compartilhamento de trabalho com horas reduzidas é escolhido em detrimento a demissões, de modo que os deslocamentos a partir de uma recessão econômica são bem menos severos. Ao contrário da presunção americana de um "local de trabalho" como foco central do movimento trabalhista, o distrito industrial assume a solidária comunidade de ofício como a ligação de longo prazo primária para o trabalhador individual, e o local de trabalho em qualquer dado momento como um estado passageiro de coisas.


E, finalmente, em uma economia relocalizada de produção em pequena escala para mercados locais, em que a maior parte do dinheiro é circulado localmente, tende a haver uma tendência muito menor em relação a ciclos de expansão e recessão ou fluações radicais nos preços das mercadorias. Em vez disso, provavelmente haveria uma adequação razoavelmente estável da oferta à demanda no longo prazo.

Como querela menor, Price diz que eu falhei em notar as previsões de Engels sobre a tendência cada vez maior em direção a uma "estratificação completa do capitalismo" (citando Engels): "O representante oficial da sociedade capitalista - o estado - irá, em última análise, ter que se encarregar da direção da produção". Na verdade, ao discutir a nacionalização de de indústrias de extração centralmente importantes e da infraestrutura de comunicação e transporte sob o "socialismo democrático", eu fiz referência específica às passagens relevantes de Engels em Anti-Duhring.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Governança, Agência e Autonomia: Temas Anarquistas na Obra de Elinor Ostrom

INTRODUÇÃO



Este artigo é proposto como um em uma série, a ser lido em conjunto com meu anterior sobre James C. Scott, sobre pensadores anarquistas e descentralistas cuja afeição pela particularidade de instituições locais e de escala humana ultrapassa quaisquer rótulos ideológicos doutrinários.


A Governança de Recursos de Reserva Comum. Ostrom começa observando o problema do esgotamento de recursos naturais, o que ela chama de "recursos de reserva comum" - e então passa a examinar três teorias principais largamente complementares ("conceitos intimamente relacionados") que tentam explicar "os muitos problemas que as pessoas enfrentam quando tentam alcançar benefícios coletivos": a "tragédia dos comuns" de Hardin, o dilema do prisioneiro, e a "lógica da ação coletiva" de Olson.


Infelizmente, estes modelos (ou este modelo) se ossificou em um dogma, servindo mais frequentemente como um substituto para o pensamento do que como um ponto de partida. Mais do que vinte anos após a obra seminal de Ostrom, ainda é comum afirmar como um truísmo - suportado apenas por uma alusão passageira a Hardin ou ao dilema do prisioneiro - que os usuários reais de recursos inevitavelmente os esgotarão na ausência de governança por parte de uma autoridade superior ou outra. Ostrom cita uma afirmação jovial, em um artigo sobre áreas de pesca na The Economist: "deixados à própria sorte, os pescadores vão explorar excessivamente os estoques .... [P]ara evitar o desastre, os gestores devem ter hegemonia efetiva sobre eles".


Esta última citação exemplifica perfeitamente a abordagem comum em relação à governança de recursos de reserva comum assumida por defensores tanto da regulamentação estatal quanto da privatização corporativa. O próprio Garrett Hardin, revisitando mais tarde seu artigo sobre a tragédia dos comuns, argumentou que o problema de esgotamento de recursos teria que ser abordado ou por "um sistema empresarial privado" (isto é, propriedade por parte de firmas empresariais com fins lucrativos) ou pelo "socialismo" (isto é, propriedade e regulamentação por parte do estado). (A suposição de que a "empresa privada" e o "socialismo" ambos exigem hierarquias administrativas de um tipo ou de outro e são incompatíveis com instituições horizontais e auto organizadas, diz muito sobre os valores internalizados do estrato intelectual.)


Ostrom passa a considerar o desempenho insatisfatório tanto do Estado quanto do mercado na resolução do problema.


Dever-se-ia notar imediatamente que a justaposição entre "propriedade comum" e "propriedade privada" apresentada pelos libertários capitalistas do mainstream é simplesmente tola. Nos casos em que parcelar um recurso comum pelos indivíduos é, pela natureza do caso, impossível, Ostrom diz, é-se duramente pressionado para entender exatamente o que se quer dizer com "privado". Campos abertos ou pastagens comuns podem ser divididas em lotes separados e distribuídas aos indivíduos; mas áreas de pesca? Recursos de reserva comum, pela natureza das coisas, devem ser possuídos e governados por algum tipo de instituição coletiva, quer se trate do Estado, de uma corporação ou de uma associação horizontal auto organizada dos próprios usuários.


A propriedade por parte de uma corporação com fins lucrativos não é mais "privada" do que (ou, se você preferir, tão "coletivista" quanto) a administração de bens comuns por parte de seus usuários. Na lei corporativa, a propriedade de uma firma é detida, e sua gerência empregada, por uma pessoa unitária criada sob os termos da licença corporativa. Nenhum acionista individual ou grupo de acionistas têm qualquer direito de propriedade sobre os ativos da firma ou autoridade sobre sua gerência.


Ambas as abordagens convencionais de "privatização" e "regulamentação estatal" equivalem, quando todas as ficções legais são tiradas fora, a substituir o julgamento dos usuários pelo de gestores trabalhando para alguma autoridade central absenteísta (talvez apenas em teoria, trabalhado, na verdade, por seus próprios interesses). Então poderíamos esperar que isso resultasse nos mesmos problemas de conhecimento e incentivo que sempre resultam de externalizar custos e benefícios, quando a propriedade e o controle estão divorciados do conhecimento direto da situação.


Por outro lado, poderíamos esperar que colocar o controle diretamente nas mãos daqueles com o conhecimento local Hayekiano de uma situação resulte em resultados bem preferíveis a qualquer uma das duas outras abordagens baseadas em verticalidade e controle absenteísta.

E as descobertas de Ostrom confirmam essa expectativa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O anarquismo enquanto um programa progressivo de pesquisa em economia política

O anarquismo enquanto um programa progressivo de pesquisa em economia política
A teoria econômica, desde seu primeiro tratamento sistêmico em Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações de Adam Smith, tem claramente enfatizado os benefícios mútuos do comércio voluntário. Ao se especializar na produção e oferecer os bens e serviços para troca com outros, tanto os indivíduos quanto a sociedade ficarão em melhor situação. A fonte da riqueza não são os recursos naturais que jazem na terra ou as conquistas de terras estrangeiras, mas uma expansiva divisão do trabalho guiada pela troca voluntária. Smith havia estabelecido uma presunção em relação ao voluntarismo na interação humana em bases consequencialistas. A liberdade individual não era apenas correta de uma perspectiva moral, mas produziria maiores benefícios sociais também. No entanto, desde o princípio da economia se argumentou que estes benefícios da troca voluntária só poderiam ser realizados se a presunção em relação ao voluntarismo fosse suspensa a fim de criar as instituições governamentais necessárias para fornecer o framework dentro do qual a troca voluntária pode ser realizada.
Precisamente quanto a presunção em relação ao voluntarismo precisaria ser suspensa a fim de fornecer o framework para a troca voluntária tem sido uma das questões mais contestadas na economia desde o final do século XIX. A teoria dos bens públicos, do monopólio e das falhas de mercado todas contribuíram para expandir a aceitação da coerção e para qualificar a presunção em relação ao voluntarismo entre os economistas do mainstream. É importante lembrar que cada um desses argumentos para qualificar a presunção suscitou contra-argumentos por parte de economistas que demonstraram que os chamados bens públicos podem, na verdade, ser fornecidos de forma privada, que o monopólio não é uma consequência natural da troca voluntária, mas o resultado da intervenção governamental e que as falha de mercado são, elas mesmas, na raiz, causadas pelas falhas legais e não a consequência da troca irrestrita. Embora a linha dominante de pesquisa tenha pressionado contra a presunção de voluntarismo, uma outra linha de pesquisa sugere que a presunção deveria ser defendida mais consistentemente se se quiser atingir uma ordem social pacífica e próspera.
É esta linha alternativa de pesquisa que eu quero enfatizar em meus comentários aqui. Como explicarei, minha ênfase será no que eu chamarei de 'anarquismo analítico positivo' e no potencial evolutivo destas ideias enquanto um programa progressivo de pesquisa em economia política no cenário contemporâneo da ciência social.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Individualismo se Choca com a Cooperação?

O Individualismo se Choca com a Cooperação?
O Coletivismo Força a Cooperação, Entregando Dissonância e Violência

Individualistas têm uma má reputação na política nos dias de hoje. Isso não deveria ser nenhuma surpresa; a política nos dias de hoje é dominada pela política eleitoral, e a política eleitoral é uma empreitada essencialmente anti-individualista. Com mercados livres e outras formas de associação voluntária, as pessoas que não conseguem concordar sobre o que vale a pena podem seguir seus próprios caminhos. Mas o ponto das eleições governamentais é dar às pessoas da maioria política um meio para forçar suas leis, projetos e governantes favoritos sobre as objeções das pessoas da minoria política e fazer todo mundo obedecer essas leis, financiar ou participar desses projetos e reconhecer esses governantes.

Ainda assim, mesmo se for pouco realista esperar que o individualismo receba muito respeito de pessoas que estão profundamente investidas na política eleitoral, não é pedir demais para que elas não tentem ganhar pontos políticos distorcendo totalmente nossa posição. Em todo caso, se elas o fizerem, vale a pena tomar o tempo de esclarecer as coisas.

Por exemplo, considere "The Social Animal" do colunista neoconservador do New York Times David Brooks (de 12 de Setembro de 2009). Ele começa citando o argumento de Barry Goldwater (em The Conscience of a Conservative) de que "Todo homem, para seu bem individual e para o bem de sua sociedade, é responsável por seu próprio desenvolvimento. As escolhas que governam sua vida são escolhas que ele deve fazer; elas não podem ser feitas por qualquer outro ser humano... A primeira preocupação do conservadorismo sempre será: Estamos maximizando a liberdade?".

Noções Antiquadas?

Brooks diz que as ideias de Goldwater parecem vir de uma visão da vida humana baseada em indivíduos solitários e ásperos - "o pioneiro corpulento cruzando o Oeste, o empresário tomador de riscos com uma visão, o herói valente lutando contra o inimigo coletivista". Brooks protesta que "uma maré de pesquisas" nas ciências humanas e sociais demonstrou que as noções individualistas antiquadas de Goldwater não são suportadas pelas últimas evidências empíricas porque, Brooks nos conta, seres humanos são criaturas sociais por natureza, intimamente ligados uns aos outros no tecido de uma vida social compartilhada.

Em seguida, ele coloca em uma série de políticas republicanas que ele considera muito travadas no quadro de livre mercado do velho Goldwater - cortes de impostos, vouchers de educação financiados por impostos, e a "escolha individual financiada pelo governo federal" dos cuidados de saúde. Ele sugere que princípios individualistas de livre mercado impediram os conservadores modernos de proporem uma justificativa convincente para os gigantescos resgates financiados por impostos do governo federal para as principais empresas de investimento e capital de hipoteca. (Aparentemente a falha em fornecer uma justificativa convincente para os regates governamentais das grandes empresas deve ser um problema do individualismo, não um problema com os resgates.) E ele conclui que o legado de Goldwater de individualismo de livre mercado irrealista agora é "o principal impedimento para a modernização Republicana", que ele acredita que tem prejudicado os esforços de seus colegas republicanos para fornecer respostas plausíveis para "as mais graves preocupações atuais", que remontam ao fato de que "as pessoas não têm um ambiente seguro em que possam levar suas vidas".

Talvez Brooks esteja certo sobre o legado de Goldwater estar atrasando os Republicanos politicamente. Ideias individualistas podem ser uma venda difícil, particularmente uma vez que o foco obsessivo na política eleitoral como uma panaceia para todo mal social garante que ideias genuinamente individualistas quase nunca são apresentadas na mídia ou discutidas em fóruns públicos. Mas quer ele esteja certo ou errado sobre a melhor maneira para os Republicanos se "modernizarem completamente", eu não ligo muito para o Partido Republicano ou seus prospectos políticos, ou para a reputação de Barry Goldwater. Eu me importo, sim, com os prospectos para o individualismo e para mercados verdadeiramente libertos. E o argumento de Brooks contra eles comete uma série de erros sérios e enganosos.

Brooks, em última análise, condena políticas de livre mercado porque elas têm cheiro de individualismo e ele condena o individualismo porque seres humanos são demonstravelmente animais sociais, que vivem vidas interdependentes e ganham tanto utilidade quanto significado através de redes sociais, comunidades e projetos compartilhados. Ele aponta que pensadores conservadores tradicionalistas como Edmund Burke apreciavam "o valor das redes, das instituições e dos laços sociais invisíveis" - aparentemente acreditando que isso os separa de livre-mercadistas individualistas. Claro que seres humanos são criaturas sociais e que redes, instituições e laços sociais invisíveis são todos tremendamente importantes para nossas vidas e subsistências compartilhadas. Mas tentar usar isso como um argumento contra o individualismo não é nada além de um non sequitur pesado. Que individualista jamais negou isso? Individualistas, ao contrário das alegações de Brooks, não têm qualquer objeção geral à socialidade humana. Percebemos o quanto todos nós dependemos uns dos outros em nossas vidas cotidianas. Isso deveria ser óbvio o suficiente a partir do fato de que acreditamos em substituir a regulamentação governamental pelos mercados libertos e por associações voluntárias. Mas se não é óbvio o suficiente, deixemos tão claro quanto pudermos.

Um mercado liberto não é nada mais, nada menos, que uma forma de colaboração social espontânea. Não existe nenhum mercado sem diversas pessoas cooperando umas com as outras para comprar e vender, interdependentes de outras que trabalham, inventam, descobrem oportunidades e geralmente se viram para negociar e escambar. E há miríades de outras maneiras para pessoas livres escolherem cooperar individualmente sem trocas monetárias, como redes familiares, caridades, organizações comunitárias, lojas fraternais ou sociedades de ajuda mútua voluntárias e sindicatos de trabalhadores.

Cooperação ou Coerção

O debate entre individualistas e coletivistas "modernizados" não tem nada realmente a ver com se os seres humanos deveriam ou não viver uma vida social; tem a ver com os termos nos quais nos associamos para trabalharmos e vivermos juntos - se nossas combinações sociais deveriam ser cooperativas ou coercitivas. Combinações sociais só podem ser verdadeiramente cooperativas se elas forem voluntárias - se elas forem organizadas através da persuasão e do acordo de livre entre todos os envolvidos, em vez de através da força e da obediência coagida por alguns em favor de uns poucos.

Aparentemente Brooks acredita que temos apenas duas opções: Ou vivermos como uma massa de eremitas solitários que não cooperam, mas são livres e "individualistas ásperos" do cada um por si, ou então vivemos como uma rede de "criaturas socialmente incorporadas" cooperativas, mas sem liberdade, com impostos e regulamentações governamentais empurrando-nos para baixo para se certificar de que sejamos bons e estejamos incorporados no conjunto particular de arranjos sociais que o governo favorece - quer qualquer um de nós tenha escolhido fazer outros arranjos com nossos companheiros ou não. Mas onde isso deixa a óbvia terceira opção - a cooperação voluntária?

O individualismo não é uma justificativa filosófica para atitudes antissociais ou para a indiferença ou hostilidade em relação às suas criaturas semelhantes. É o coletivista, não o individualista, que vê seres humanos como criaturas naturalmente truculentas que não se importam o suficiente umas com as outras para conviverem pacificamente e que precisam ter os planos para a colaboração forçados sobre si a partir do topo. Prometendo harmonia e segurança sociais, o coletivismo entrega dissonância e violência.

Os individualistas acreditam no individualismo precisamente porque acreditamos que seres humanos podem e devem ser tanto sociais quanto civilizados uns com os outros ao mesmo tempo - que a vida comunal e social não exige empurrar as pessoas ao redor ou assediá-las para que sigam um grande plano. O que Brooks falha em ver é como - individualmente - podemos pacifica, livre e naturalmente formar comunidades, instituições e laços sociais invisíveis conforme percorremos nosso caminho através do mundo.

domingo, 20 de setembro de 2015

Radiante e Ensolarado

Radiante e Ensolarado
por Uriel Alexis


Em todas as coisas da natureza existe algo de maravilhoso.
- Aristóteles, Das partes dos animais


Devemos ser otimistas. Se não por nada, pelo menos porque já o somos a todo momento, dado que estamos vivas. As únicas verdadeiras pessimistas estão mortas. Viver é a todo momento escolher e ter esperança de que estamos certas, acreditando que nossas ações darão certo. Por certo, ter esperança não é ficar à espera. Esperança é ação: nós definimos uma ação, por um salto de fé, e a levamos a cabo, por um salto de esperança. Manter, de outra maneira, a crença de que as coisas não irão como esperado, ser uma pessimista, é cair em contradição: como pode você ainda estar viva e agindo então? Mantê-la por um longo tempo é assumir a postura de um zumbi: um verdadeiro vivo morto, dado a vagar pelo mundo na esperança de um evento para dizer: eu disse a todas vocês!


Mas eu não quero fazer esse ponto um tanto metafísico, sobre por que o otimismo é bom. Eu quero, antes, fazer um ponto um tanto mais aparentemente difícil: de que temos boas razões para sermos otimistas no século XXI.


Podemos começar um nada pequeno milagre: o declínio constante da pobreza material por todo o mundo. Os meios técnicos em nossa sociedade não foram tão abundantes em relação às necessidades percebidas desde os dias do paleolítico, e todas as pessoas - sim, eu realmente estou falando de todos os seres humanos na terra - provavelmente estarão, se a atual tendência for mantida, acima da linha da pobreza até o fim deste século.


Depois, provavelmente a coisa atualmente mais óbvia, agora podemos nos comunicar de forma mais rápida e mais ampla do que nunca. Somos capazes de nos manter em contato com literalmente milhares de pessoas por dia, e frequentemente o fazemos. Nesta revolução em rede da interação social, assoma a oportunidade crescente de empatia, de encontrar pessoas que lhe entendem e do entendimento de novas pessoas enquanto uma necessidade para a sobrevivência contínua. Nunca fomos tão próximas e calorosas em uma escala tão global. Agora nos importamos, não apenas com nossa família e amigas locais, mas com toda uma série de amigas muito distantes (que, por sua vez, se importam elas próprias com toda uma rede de pessoas) e com completas estranhas. Temos simpatia para com as chinesas exploradas em fábricas de suor de uma forma que Adam Smith jamais poderia ter sonhado. Ficamos repugnantemente chocadas com tentativas de dominação e demonstrações de violência, como se as vítimas fossem nossas conhecidas próximas (bem, dado tempo o suficiente, de fato elas poderiam ter sido suas amigas no Facebook).


Além disso, agora entramos em contato com uma quantidade gigantesca de opiniões diferentes sobre basicamente qualquer assunto, todos os tipos de tons de cor e matizes, todos os tipos de dietas, música, arte, filmes, filosofias, valores, linguagens, culturas, conhecimento e assim por diante. O diferente, o outro está cada vez mais presente em nossas vidas diárias, incitando mudanças em nossos hábitos e ações cotidianas - ou, para colocar melhor, em nossa estrutura social. A diferença é um valor, algo a ser preservado? Eu lhes digo que é o único caminho para a liberdade. A diferença é incerteza. É o desconhecido, o pouco familiar, o imprevisível, lhe olhando na face, vestido de preto - "o que está por trás deste semblante esquisito? como responderei?". E a incerteza é liberdade. O mero ato da escolha - a própria constituição da liberdade como tal - está fundamentalmente enraizado em não sermos capazes de predizer as consequências com certeza - se soubéssemos com certeza de onde nossas escolhas vieram e para onde estão indo, não haveria experiência de escolha. Então, se a liberdade é um valor, assim o é a diferença.


A principal preocupação na era da informação, me parece, tem sido se nós realmente conseguimos passar por uma onda tão grande informação. Parecemos estar indo muito bem. Nossas redes filtram o fluxo de informação para nós, a velocidade incessante e a ampla conectividade certificam-se de que não fiquemos presos em bolhas a menos que de fato batalhemos duro por isso (caso no qual, qual é o problema?). Voltaire estava errado sobre esta, a multidão de livros (eletrônicos) (e blogs, e notícias, e posts, etc) nos deixou mais espertas, não mais ignorantes.


Até aqui o futuro parece brilhante para nossa era: diferença, empatia e liberdade. Mas vamos nos sujar, vamos entrar na política. Embora aqui também parece que temos perspectivas realmente boas. A organização em rede permitiu maneiras completamente diferentes para se pensar e fazer política que, embora tenham sido imaginadas antes (principalmente por anarquistas individualistas), não tinham qualquer substrato material ao qual se agarrar. Criptomoedas, impressoras 3D, contratos inteligentes, administração enxuta, a própria Internet, todas permitem e de fato quase exigem arranjos horizontais e cooperativos, descartando a hierarquia como ineficiente, irracional e desorganizada. Anarquia é ordem, disse Bellegarrigue há mais de 150 anos. Agora soa como uma profecia. A revolução estigmérgica, como tem sido chamada, fornece os meios através dos quais podemos vislumbrar a ordem social de diferença pacífica, igualdade social, liberdade individual e ajuda mútua tão proclamada pelas anarquistas ao longo dos séculos XIX e XX. Nesta tecnoutopia libertária, pessoas são corporações, em termos de empoderamento.


Há mais: podemos vislumbrar uma vida de movimento constante, conexão com a natureza, inovação imprevisível, amplo compartilhamento de informação, trabalho transformado em arte e relações humanas intensas. O surgimento e retorno de um etos de habilidade e engenho individual permitem uma vida semi-nômade, uma dieta embasada em comida menos industrializada e mais saudável e uma produção sem destruição ambiental através de técnicas tais como a permacultura, a bioconstrução, a produção p2p e crypto-transações, como Kevin Carson e outros vem fazendo um grande esforço para transmitir.


A desescolarização da sociedade que Illich desejava está acontecendo agora cada vez mais rápido. A informação se espalha rapidamente através de nossas redes sociais e aprendemos cada vez mais guiadas por nossos próprios interesses do que através de currículos fornecidos por "mestres". Com esta liberdade vem a nudez da alma: esforços criativos, comumente incitados por sua pura diversão, contribuem para ainda mais mudanças. Conforme a realidade se acelera, somos propelidas em direção à realização de que o valor é a importância de nossas ações conforme reconhecidas por aquelas com que nos importamos (o que cada vez mais tende a "todo mundo").


Este quadro parece ótimo, pelo menos para aquelas de nós que não tenham medo de mudanças constantes e imprevisíveis. Para que eu não fique calado sobre o lado feio de tudo que há, vamos "cair na real" (ou melhor, vamos tentar olhar isso através dos olhos da pessimista): é verdade que teremos lutas e violência e ódio, e talvez a noite parecerá muito mais escura justamente antes do amanhecer. Existem muitos conflitos em andamento no mundo (menos do que jamais houveram, no entanto), derramando sangue inocente e mandando para longe de casa milhões de pessoas. E, conforme nossas instituições modernas falhem sob o peso das crises que criaram, muitas disputas mais podem surgir. Eu não espero realmente efetuar uma mudança sem qualquer tipo de conflito, muito pelo contrário "é o choque de ideias que lança a luz". Como Katherine Gallagher, citada por Carson, coloca:


Para mim, trata-­se de esticar nossas redes do que é possível através de fronteiras, de descentralizar... "Nós" seremos transnacionais e distribuídos. Não seremos cercados por "eles", mas entrelaçados por entre suas estruturas antiquadas, impossíveis de sermos colocados em quarentena e liquidados. Eu não sou uma pacifista. Eu não sou mesmo contra a violência defensiva. Essa é uma questão separada para mim, de derrubada. Mas para simplificar demais, quando se tratar de violência, eu quero que seja a última resistência de uma ordem se desintegrando contra uma ordem emergente que já fez muito do trabalho duro da construção seus ideais/estruturas. Não revolucionários violentos, certos de que sua sociedade será viável, prontos para construi­-la, mas uma sociedade se defendendo contra mestres que não mais a governam. Construa a sociedade e a defenda, não avance com as armas e tente produzir a anarquia nos escombros. Eu acho que a tecnologia está cada vez mais colocando a possibilidade de resistência significativa e de independência trabalhista dentro do domínio de um futuro significativo. Muitos dos meios de nossa opressão estão agora mais suscetíveis a serem duplicados em uma escala humana (e muito da guerra de patentes parece visar impedir isso). E eu acho que deveríamos estar trabalhando em como planejamos criar uma indústria paralela que não é mantida apenas por aqueles poucos. Cada vez mais os meios de manter essa indústria, guardada apenas para poucos, estão dentro do domínio da lei de patentes. Não é mais verdade que os poucos possuem o "torno", por assim dizer, tanto quanto que eles possuem a patente dele. Então nós realmente poderíamos conseguir mais criando uma produção alternativa real do que capturando essa alternativa já construída. Sim, haverá violência de proteção, mas não é tão verdade quanto o era no passado, de que há meios realmente necessários de produção nas mãos de poucos. O que eles controlam mais agora é o acesso aos métodos de produção e tentam impedir esses métodos de serem usados fora de sua supervisão. Novamente, eu não estou dizendo que os "últimos dias" do estado não serão marcados pela violência. Mas estou dizendo que agora temos opções táticas reais além de confrontá-los diretamente até que eles venham a nós.

Eu não quero parecer aqui que estou dizendo "tudo está bem, vamos sentar e relaxar e esperar" (bem talvez sentar e relaxar seja uma boa em alguns momentos). A esperança e o otimismo, como eu disse, implicam em ação. O que estou dizendo é que estamos perfeitamente dispostas e capazes de resolver nossos atuais problemas e os problemas que surgirão no futuro próximo de maneiras criativas, belas, pacíficas e voluntárias. Nossa revolução é uma revolução de paz, de mudança radical através de meios voluntários. De fato é uma revolução nas revoluções: a primeira vez que podemos realmente pensar em uma mudança massiva na estrutura social sem a necessidade de homens armados e altos chefes. O que estou falando é, antes, um chamado a ação: temos as ferramentas, temos o desejo, estamos em um caminho bom e promissor, vamos olhar adiante com esperança e otimismo e fazer o que acreditamos "pois o mundo fica mudo a cada alma que abdica". Após o amanhecer, estará tudo radiante e ensolarado.