Mostrando postagens com marcador libertarianismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador libertarianismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

5 Definições para Libertarianismo de Esquerda, ou Esquerda Libertária, ou Ala Esquerdista do Libertarianismo

5 Definições para Libertarianismo de Esquerda, ou Esquerda Libertária, ou Ala Esquerdista do Libertarianismo

1) Left-libertarianism como a ala mais esquerdista dentro dos libertários pró-mercado: são anarquistas individualistas de mercado de esquerda, que defendem o livre mercado, se dividem principalmente entre mutualistas pró-mercado (defendem que a apropriação da terra só existe enquanto há uso e posse, e o cooperativismo como forma de organização econômica) e rothbardianos de esquerda (principalmente ligados ás concepções agoristas, e à ideia de um livre mercado tendendo espontaneamente para menos trabalho assalariado), mas também há os georgistas (defendem um imposto sobre a terra nua cuja receita subsidiará uma renda básica para todos). Uma importante concepção aqui é o chamado agorismo, que é um anarquismo de mercado revolucionário, defende a contra-economia como forma de desmantelar o Estado e a economia de grandes corporações protegida por ele. Um outro nome da corrente é anticapitalismo de livre mercado, pois o 'capitalismo' é considerado igual ao 'capitalismo de compadrio', apenas mais uma fase de exclusão econômica baseada no poder estatal.

2) Left-libertarianism como teoria da justiça: Em teoria da justiça, 'libertárias' são as teorias da justiça que assumem que a distribuição justa é conferir àquele que produziu o produto de sua produção e que transferências desses produtos de umas pessoas para outras são justas se feitas voluntariamente. A versão padrão, de Nozick, assume que ninguém produziu a terra e os recursos naturais, mas que estes estão sujeitos a uma apropriação em caráter definitivo, desde que satisfeita a ressalva lockeana (ninguém ficar pior), o que seria alcançado pelos efeitos gerais do sistema de propriedade privada que deixam todos melhor do que numa situação sem propriedade privada; portanto, toda redistribuição seria ilegítima. Os left-libertarians concordam que tudo o que alguém produz é seu por direito, mas rediscutem essa questão da apropriação da terra e da ressalva lockeana, pois consideram que a terra e os recursos naturais, por não terem sido produzidos por ninguém, são de posse comum de toda a humanidade, e, por isso, a apropriação delas por alguém deve ser compensada à comunidade por meio do pagamento de um tributo sobre o valor da terra nua. Dessa forma, eles justificam a redistribuição. Eles são conhecidos também como geolibertários.

3) Esquerda libertária no sentido de socialismo libertário: É um termo por si só polissêmico, mas que abrangeria principalmente os anarquistas clássicos, que defendem um socialismo sem Estado. Aqui pode ir desde os mais coletivistas bakunianos, até os neomutualistas que adotam o cooperativismo mas com uma retórica anti-mercado, e passar para anarquistas individualistas que não sejam de mercado. Ou seja, são os anarquistas tradicionais mesmo, anti-autoritários.

4) BHL: bleeding heart libertarians, isso quer dizer libertários sentimentais. O nome é uma ironia com o modo como a direita americana chama sua esquerda pelo modo como esta se preocupa com minorias, pobres, etc. (de bleeding heart, sentimental) Em um sentido amplo, BHL engloba também os left-libertarians no sentido do tópico 1, foi criado por um deles inclusive (Roderick Long, que é rothbardiano de esquerda). Mas no sentido estrito que se tornou o mais comum, trata-se de uma forma de liberalismo ou libertarianismo acadêmico que defende conjuntamente a liberdade individual, inclusive econômica robusta (como os liberais clássicos), e uma concepção de justiça social (como os liberais 'igualitários', em geral que são liberais sociais mais estatizantes). O nome mais acadêmico dessa vertente seria liberalismo do Arizona (pela maioria dos seus expoentes estarem de algum modo ligados ao Departamento de Filosofia Política da Universidade do Arizona) ou liberalismo novo-clássico, que é usado por alguns deles em livros. Então, ela entra na discussão de Teoria da Justiça que falamos no tópico 2, e desafia a Teoria da Justiça libertária a se aproximar mais da igualitária e a Teoria da Justiça igualitária a se aproximar mais da libertária. Só que a concepção dos BHLs de justiça social em geral não defende que a distribuição de renda melhor é a mais igualitária na medida do possível, mas sim aquela que atende uma condição de suficiência (todos tem acesso suficiente a bens básicos) ou de prioridade (é preciso priorizar a melhora de quem está pior). Eles valorizam o crescimento econômico como uma forma de maximizar a riqueza dos menos favorecidos, o que beneficiaria mais a estes do que uma economia estacionária onde apenas se redistribui a renda. Alguns defendem um neo-rawlsianismo, outros o liberalismo da razão pública, outros aderem a alguma forma de pluralismo consequencialista, e assim por diante. A esmagadora maioria dos BHLs são liberais que defendem a existência de um governo limitado que assegure uma renda mínima, e com mais um ou outro detalhe. Em teoria, podem ser anarquistas de mercado também, mas o máximo que já vi é a defesa de que alguns tipos de Estado e alguns tipos de anarquia bem-ordenados são justificados, ou seja, que o Estado não é necessário mas é permitido assim como uma anarquia bem-ordenada, e a anarquia bem-ordenada justificada envolveria alguma renda mínima. Eu os considero também uma forma de liberalismo social menos estatizante.

5) Liberais sociais, liberais à esquerda: Podem englobar os BHL, mas no sentido mais amplo englobam um tipo de liberalismo que, na versão ativista, acaba sendo consideravelmente mais estatizante, e, na versão acadêmica, defende teorias de justiça de viés igualitário atenuado, como Rawls, Dworkin, Amartya Sen, etc. A versão acadêmica é conhecida como liberalismo igualitário. A ideia de muitos deles é que a liberdade econômica não pode ser defendida junto com uma ideia robusta de justiça social, mesmo que eles em geral aceitem uma economia de mercado relativamente mais livre que a aceita por social-democratas, por terem uma avaliação positiva da ideia de mercado, mesmo que com algumas ressalvas. Mas é importante lembrar que parte dos liberais sociais ou de esquerda estão se aproximando do BHLismo, no sentido de defender uma política econômica mais explicitamente pró-mercado, ao questionar o papel do Welfare State em promover exclusões.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

De Famílias Livres a Sociedades Estatistas e De Volta Outra Vez

De Famílias Livres a Sociedades Estatistas e De Volta Outra Vez

Introdução

Como seriam as famílias em uma nação livre? Esta questão levaria pelo menos diversos volumes para se explorar por completo. E não há realmente nenhum conjunto definitivo de respostas. A maior diferença não seria que algo novo estaria presente, mas antes que algo estaria ausente - a influência do estado. A interferência do estado na sociedade encoraja alguns tipos de comportamentos familiares e desencoraja outros. Na ausência do estado é provável que algumas tradições familiares inteiramente novas emergissem, mas também que as anteriormente estabelecidas continuassem a existir, incluindo algumas que são raras atualmente. No geral, as escolhas feitas por indivíduos nesta matéria provavelmente seriam mais diversas e abertas do que é o caso em sociedades estatistas.

Em vez de tentar fornecer uma lista completa das alternativas, eu discutirei como a história das famílias humanas indica uma ampla variedade de possibilidades para a estrutura familiar e então examinar a relação histórica do estado com as famílias. Ao fazê-lo, eu estarei trabalhando sob a tese de que, em sociedades estatistas, a família está em concorrência direta com o estado pela lealdade e pelo controle dos recursos dos indivíduos. Finalmente, explorarei temas para apenas algumas das muitas oportunidades modernas que uma nação livre poderia oferecer às famílias.

A discussão contemporânea sobre a política da família frequentemente envolve a noção de "valores familiares", ou o que é bom para "a família". Em tais discussões, frequentemente se mantém que "a família" é a unidade social básica da sociedade civilizada. É, contudo, um tipo muito específico de família a que se faz referência, uma família com um macho adulto e uma fêmea adulta, que têm um casamento licenciado pelo estado e que estão criando dois ou três filhos. O homem e a mulher tipicamente têm ou tiveram um relacionamento sexual e são tipicamente os pais biológicos das crianças. Os membros da família vivem em uma única residência. Eles podem ou não ter parentes de sangue por perto. Mas a maior parte de suas interações sociais são com pessoas com quem eles não são relacionados.

Frequentemente se assume em discussões de problemas sociais que uma sociedade que fomenta esse tipo de família é desejável e que esse tipo de família é o mais natural para a humanidade. Mas estas noções estão claramente erradas. Na história natural da humanidade, a família mencionada acima é um fenômeno muito recente. Pensa-se que variações do tipo biológico humano (caracterizado, entre muitas outras coisas, pelo uso da pedra ou de ferramentas mais avançadas) existem há pelo menos 2 milhões de anos. Estes, nossos ancestrais, viveram, na maior parte do tempo, em bandos caçadores-coletores, em uma estrutura social com características muito diferentes do ideal da "família moderna".

A Estrutura Familiar Mais Antiga da Humanidade

O bando caçador-coletor era certamente uma comunidade, embora normalmente uma pequena. Seria tipicamente composto de menos do que 100 indivíduos de ambos os sexos e uma ampla gama de idades. Percorreria a paisagem em busca de animais pequenos e médios, tipicamente caçadas pelos machos adultos, e animais muito pequenos, insetos e plantas comestíveis, tipicamente coletados pelas fêmeas e crianças. Esta era a divisão mais significativa do trabalho, produzindo, de algumas formas, ambientes e subculturas separadas para homens e mulheres. Os homens poderiam caçar individualmente ou em grupos. Mas quando cooperavam, a liderança não era embasada em postos oficiais, mas sim em um caçador propondo uma caçada em grupo e recrutando outros para segui-lo. Ninguém era compelido a seguir, no entanto, e caçadas diferentes poderiam ter tido líderes diferentes baseado no carisma relativo de diferentes indivíduos em diferentes momentos. As mulheres precisavam de ainda menos coordenação. Com elas a liderança seria mais uma questão da mais sábia ou mais habilidosa em dar conselhos conforma a necessidade surgia.

As evidências sugerem que haviam poucas, se quaisquer, pessoas que hoje chamaríamos de "velhas" (acima de 50 anos). O cuidado das crianças era primariamente o trabalho da mãe biológica de cada criança, mas todas as crianças eram nutridas em alguma medida por todos os adultos, especialmente as mulheres. Na maior parte da existência da humanidade, a noção de paternidade não existiu, já que a relação entre sexo e gravidez não era conhecida. É impossível dizer quando esta descoberta foi feita, mas mesmo após a noção de paternidade ter sido estabelecida, havia uma tendência do parentesco de uma criança ser traçado primariamente ou apenas através de sua mãe, já que a identidade do pai biológico ainda era duvidosa. No entanto, a qualquer momento, a mãe de uma criança poderia ter tido um amigo homem adulto especial dentro do bando que fazia sexo regularmente com ela e que compartilhava comida com ela e com quaisquer crianças pequenas que ela pudesse ter. Esta associação do homem com a mãe beneficiaria sua jovem criança, embora ele pudesse não ter sido seu pai biológico. Estes grupos menores de indivíduos estariam grosseiramente próximos da noção moderna de "agregado familiar". Cada criança quase certamente saberia quem era sua mãe, e assim também quem eram as outras crianças de sua mãe, e assim também quem (pelo lado de sua mãe) eram suas tias, tios, etc. Se estas pessoas estivessem por perto, uma certa afinidade entre tais parentes de sangue existiria. A maior parte dos adultos teria sido criada junta e, em grande medida, estaria criando suas próprias crianças junta.

Contudo, a família de sangue (pelo lado da mãe), embora conhecida, poderia não ficar com o bando. Durante a maior parte do período em que humanos se organizaram apenas como bandos caçadores-coletores, a humanidade ainda não havia preenchido o espaço habitável disponível. O número total de humanos na terra crescia de forma extremamente lenta. Grandes riscos de doenças ou ataques de animais impediam a maior parte das crianças de atingir a idade adulta. Muitas mulheres morriam no parto. Os homens podiam ser feridos em confrontos com animais. Conseguir comida o suficiente não era o maior problema. Mas haveriam épocas em que a comida em alguma área específica poderia ter sido um pouco escassa, motivando o bando a se dividir em dois ou mais grupos e irem por caminhos separados. Ninguém provavelmente morreria de fome, mas indivíduos poderiam perder contato com parentes. A perda de um membro do grupo poderia também ocorrer quando bandos diferentes se encontrassem. Normalmente, eles poderiam se permitir um grau razoável de cordialidade. E, quando tomavam caminhos separados, cada bando poderia perder alguns membros para o outro. Às vezes, mas não sempre, isso envolveria novos relacionamentos sexuais, diversificando assim o pool genético de cada grupo, como é o caso com os grandes primatas até hoje.

Pensa-se que humanos "anatomicamente modernos" emergiram entre 150.000 e 200.000 anos atrás. Ainda assim, a maioria, se não todos os humanos continuaram a viver como caçadores-coletores até pelo menos 10.000 anos atrás. Refere-se ao período mais antigo e longo como o "Paleolítico" (ou Antiga Idade da Pedra). O período mais novo é chamado de "Neolítico" (ou Nova Idade da pedra, cobrindo o período até o primeiro uso de metal). Apenas no Neolítico é que algumas comunidades começaram a desenvolver outros meios de se prover de comida. Lentamente o número de não-caçadores-coletores aumentou até que a vasta maioria das culturas não fossem desse tipo (embora algumas comunidades caçadoras-coletoras ainda existam hoje). Então, no mínimo 90% da história humana é caracterizada por uma organização social que era muito funcional, mas que não incluía quaisquer instituições que fossem muito parecidas com o ideal da "família moderna". O grupo caçador-coletor era uma "família", mas, pelos padrões modernos, uma razoavelmente grande, com lealdades que eram tanto social quanto biologicamente embasadas e que careciam completamente de muitos dos "valores familiares" de hoje. Se há qualquer coisa como uma família "natural", esta era ela. Mas deveríamos esperar uma re-emergência deste tipo de família em uma sociedade livre? Provavelmente não.

Novas Fontes de Comidas Influenciam a Estrutura Familiar

Quando as pessoas primeiro começaram a se associar em padrões diferentes do bando caçador-coletor, elas ainda não se organizaram em famílias modernas. Durante a última parte da era Paleolítica, os humanos haviam se tornado caçadores-coletores especialmente bons. Eles se tornaram os predadores dominantes na maior parte dos lugares, com muito menos probabilidades de serem atacados por grandes felinos. Eles até formaram uma parceria com alguns dos caninos. A população humana havia começado a aumentar em uma medida que, em alguns lugares, era difícil alimentar todo mundo das formas tradicionais.

Três novos tipos de economia emergiram - pastoreio, pesca e cultivo de plantas. Estas tendiam a produzir novos padrões familiares, cada um distinto dos outros, mas nenhum deles iguais à família moderna. Na verdade, mesmo dentro de cada uma das novas tradições econômicas, uma grande variedade de estruturas familiares existia. Em muitas instâncias, as comunidades humanas formadas eram muito maiores do que os bandos caçadores-coletores, mas isto não era sempre verdade. Havia também uma grande tendência dos membros da família manterem contato, especialmente quando as comunidades se estabeleceram em áreas geográficas definidas, mas isto não também não era sempre verdadeiro.

Quando grupos maiores e mais densos começaram a entrar em contato muito regular com outros, eles se tornaram menos fluidos. Conforme os bandos acharam conveniente reivindicar terrenos agrícolas específicos, rebanhos específicos de animais ou locais especificamente bons para a coleta de frutos do mar, a noção de território de grupo se tornou mais importante. A participação no grupo tornou-se mais valiosa para os indivíduos. Os pequenos agrupamentos compostos de uma mulher, suas crianças pequenas e seu companheiro se tornaram agregados familiares de verdade. As crianças tendiam a manter contato próximo umas com as outras quando adultas, para ajudar a manter e explorar reivindicações comuns de recursos alimentares. Bandos caçadores-coletores se solidificaram em "clãs" com tradições mais claras de participação, embasadas mais estritamente em laços de familiaridade por sangue. A noção de um casamento, ou compromisso vitalício sexual e de criação de filhos entre adultos de sexos opostos, embora não fosse completamente desconhecida para caçadores-coletores ao final do período Paleolítico, se tornou muito importante para os povos Neolíticos. O casamento confirmava a associação de um adulto nascido em um clã, mas que vivia em outro, e confirmava a participação no clã das crianças nascidas da união.

Nas comunidades maiores e especialmente nas sedentárias, havia uma tendência para alguma divisão do trabalho para além de caça vs. coleta. Os povos estabelecidos em uma localização poderiam possuir mais bens materiais, o que criava uma demanda por especialistas habilidosos que forneceriam vários bens em troca de comida ou de outros bens. Estes especialistas poderiam passar suas habilidades para seus filhos e assim estabelecer ocupações de família. Um valor adicional para a participação na família foi criado quando relações tradicionais de troca se formaram entre clãs ou entre famílias dentro de clãs.

Ainda assim, os costumes do Neolítico, incluindo as tradições de estrutura familiar, variaram amplamente em termos de especificidades. A generalização mais significativa que pode ser feita sobre qualquer uma delas é que eram significativamente diferentes das famílias de caçadores-coletores. Então, entre as poucas coisas que podemos dizer sobre o que é "natural" quanto a abordagem humana à estrutura familiar (em contraste com, digamos, aqueles de espécies específicas de pássaros ou de outros mamíferos), é que as comunidades humanas podem prosperar usando uma ampla variedade de estruturas familiares. Uma outra coisa que pode ser dita é que a economia pode influenciar muito na determinação de quais formas de família uma dada cultura humana adotará.

A Emergência do Estado

O conceito da família moderna não é apenas um produto das instituições econômicas modernas. É também um produto de milhares de anos interação com outras instituições sociais, notavelmente aquela conhecida como estado. Um estado é, em seu âmago, uma instituição militar que reivindica recursos dos indivíduos em uma sociedade em troca do fornecimento de defesa contra o comportamento predatório de instituições militares concorrentes. Cidadãos individuais de uma sociedade estatista permanecerão nesta relação ou porque 1) eles têm medo de desafiar o poder militar de "seu" estado, 2) eles temem mais um poder militar rival ou 3) alguma combinação de ambos. O estado não é, contudo, "natural" às comunidades humanas.

Não está claro exatamente quando o estado emergiu na história natural da humanidade, nem exatamente quando as primeiras instituições militares que foram claramente ancestrais do estado moderno deveriam ser chamadas de "estados". O bando caçador-coletor não era um estado. Haviam poucas pessoas em cada bando e nenhum subgrupo militar especial existia. Quando um bando era atacado por animais ou outros humanos, qualquer membro do grupo capaz de fornecer qualquer tipo de defesa para o grupo o fazia. Frequentemente, no entanto, a linha primária de defesa seria composta dos machos adolescentes e adultos do bando. Tal coordenação de força armada era uma extensão dos padrões de caça usados pelos machos, mas seria suplementada pelas mulheres e crianças quando elas pudessem fornecer ajuda. Este padrão também pode ser encontrado em outros primatas sociais. Mas, ao passo que os caçadores podem ser vistos como uma subseção do bando como um todo, eles não eram uma comunidade separada no sentido em que os soldados modernos e a polícia são um grupo separado dentro da sociedade mais ampla. Não havia qualquer choque de lealdade para os indivíduos entre "família" e "unidade militar". O combatente individual não tinha que deixar a família para participar da defesa da comunidade como os soldados modernos frequentemente fazem durante o dever militar ativo.

As comunidades Neolíticas, com populações mais densas e competição séria e frequente por comida, modificaram as estruturas familiares Paleolíticas para acomodar seus ambientes. Nenhuma instituição militar de estilo moderno se desenvolveu no período Neolítico, mas muitas culturas Neolíticas desenvolveram novas maneiras de coordenar a violência organizada. Grandes formações militares se formaram conforme guerreiros de diversos agregados familiares se combinaram sob um líder. Este chefe de guerra podia manter a posição formalmente e por longos períodos de tempo. Unidade militares do tamanho de clãs, baseadas em um reconhecimento de laços de sangue (às vezes via adoção, às vezes via casamento), se tornaram comuns entre povos Neolíticos. Chefes de guerra especialmente carismáticos poderiam ter sido capazes de reunir diversos clãs em uma aliança militar para derrotar um clã rival em comum. Estas alianças teriam sido mais fáceis onde os clãs aliados se pensassem parentes de sangue.

Vantagens militares e outras eventualmente encorajaram a associação de clãs para formarem "tribos", grupos maiores que falavam uma língua em comum e pensavam ser descendentes de um ancestral comum. Tribos não são completamente "naturais" a humanos, mas tampouco estão elas completamente fora do contexto Paleolítico "natural". Membros de bandos caçadores-coletores teriam sabido da existência de outros bandos que tinham relações de sangue com eles, que falavam uma língua em comum e que compartilhavam muitos costumes. E tais bandos relacionados teriam sido distinguíveis de ainda outros bandos com língua e costumes diferentes, na medida em que tais fossem conhecidos. Culturas Paleolíticas, contudo, provavelmente tendiam a pensar sobre "bandos relacionados" e "bandos estranhos" em vez de em termos de tribos. E elas não teriam tido qualquer necessidade de pensar em unidade militares formadas a partir de alianças de bandos, pelo menos não enquanto todos os humanos eram caçadores-coletores.

No Neolítico, bolsões de filosofia política de soma zero e soma negativa emergiam com regularidade, especialmente nas áreas mais densamente populadas. As novas fontes de comida podiam suportar muito mais pessoas em algumas terras do que o podiam a caça e a coleta. Mas nem sempre. O tempo ruim poderia prejudicar a agricultura, em especial. Às vezes as pessoas vivendo em assentamentos densos descobriam que a única alternativa à fome para seu grupo era forçar a fome sobre seus vizinhos. Este era um clima ideal para a formação de atitudes e instituições estatistas.

A emergência da cidade fortificada como a base de uma política "civilizada" (não mais Neolítica) pode ter sinalizado a primeira instância de uma instituição estatista. Mas certamente haviam enclaves estatistas em cidades estabelecidas. Os estatistas dominaram cada vez mais as cidades e áreas urbanas (de cidades muradas). As maiores formações militares eram ou recrutamentos da população masculina das cidades muradas ou facções assaltantes do tamanho de clãs de populações de pastores que atacavam as cidades. No caso dos pastores, os clãs às vezes se organizavam em facções assaltantes do tamanho de tribos, mas isso foi raro até que clãs militares e patrilineares (descendentes dos filhos determinados pela paternidade estabelecida) emergiram para liderá-las. Um homem com filhos e netos para segui-lo em batalha poderia coordená-los melhor se se pensasse que ele devia sua lealdade a ele. Como um líder militar hereditário de tal clã, um chefe de guerra carismático poderia recrutar a maior parte dos guerreiros de uma tribo em um único exército.

O Surgimento de Família "Nobres"

A estrutura social das cidades foi influenciada pela superpopulação entre os grupos de pastores vizinhos. Em tempos de dificuldade entre os pastores, onda após onda destas tribos recaíram sobre as cidades muradas. Poucos generais criados nas cidades podiam derrotar as formações militares de pastores em campo aberto quando os pastores eram guiados por um general habilidoso dos seus, embora as cidades estivessem usualmente bem protegidas por suas muralhas. Mas ao longo do tempo os comandantes pastores vieram a substituir os líderes militares nativos das cidades muradas. Às vezes como mercenários, às vezes por meio de relações hereditárias, os descendentes dos clãs de pastores forjaram reivindicações de propriedade com base no clã à maioria das instituições militares civilizadas. Em épocas mais recentes, esta reivindicação veio a ser denominada de "nobreza". Clãs nobres - famílias frequentemente do tamanho dos maiores ajuntamentos Paleolíticos (mas não maiores) - se aliaram uns aos outros para se tornarem uma instituição militar com base em tribos, que ficou arraigada como força politicamente dominante em muitas cidades. Seus generais administravam, além de seus parentes, um exército composto de recrutas da maioria das famílias não-nobres da cidade. Eles começaram a aprender como usar instituições não-militares para controlar este tipo de exército. Aprenderam a assegurar que todas as forças militares de sua cidade (mais tarde de seu império) permanecessem sob controle nobre. Entre estas instituições não-militares estavam aquelas da religião e da lei.

As primeiras áreas urbanas frequentemente evoluíram onde as famílias de clãs separados se encontraram, tentaram se reunir como uma única tribo em separado e, em vez disso, desenvolveram aversões étnicas uma à outra. Ainda assim, elas podem ter tido que se contentar (se não houvesse qualquer lugar melhor para se estabelecer). Então elas desenvolveriam instituições legais baseadas no costume - mas um costume nascido das relações entre os clãs separados. Este sistema funcionou tão bem que veio a ser usado para formar, em cada cidade, unidades políticas a partir do número equivalente a muitas tribos de clãs não-nobres "domesticados" (clãs que haviam desistido da esperança de revolta militar contra os nobres). Contudo, ele dependia da ausência de tribos fortes além dos próprios nobres. Então outras afiliações tribais dentro da cidade foram reduzidas a um mínimo. Os nobres encorajavam tanto quanto podiam costumes e leis para a cidade que fossem enviesados contra quaisquer grupos rivais do tamanho de tribos. E a adjudicação destas leis seria mantida fora das mãos de membros de clãs não-nobres e colocada nas mãos dos nobres.

Durante a maior parte do período desde o surgimento das cidades muradas (às vezes chamado de período "Civilizado"), os clãs continuaram a prosperar, apesar do enfraquecimento da maioria das associações tribais nas terras controladas pelas cidades (que sempre incluíram muitos terrenos agrícolas, não apenas as próprias cidades). Filiações tribais começaram a ser associadas, nas mentes de muitas pessoas, com filiações religiosas. Os nobres vieram a ver que não poderiam controlar os não-nobres exceto se os permitissem uma certa forma aleijada de identidade tribal - tribos domesticadas. Pretensos generais rebeldes em clãs suprimidos aprenderam que poderiam operar de maneira política como membros de uma ordem religiosa. A paz foi firmada com muitos sacerdócios de muitas etnias pelos nobres em cada cidade. Contanto que os sacerdotes pregassem contra a rebelião política, eles poderiam atingir uma considerável proeminência social.

Os Políticos: Líderes Sem Conexões com Famílias Nobres

Mas a atividade a nível de clã continuou a prosperar. Em parte, isto pode ter sido porque os nobres viam a família ao nível de clã como mais natural, ao ver que eles próprios ficavam juntos enquanto uma tribo primariamente a fim de dominar a cidade. Os nobres poderiam também fortalecer suas próprias fileiras recrutando, como novas famílias nobres, clãs sem posições nobres, de tempos em tempos. Eventualmente isto aconteceu em tal medida que a liderança em muitas cidades passou para uma nova classe - os políticos. Um político podia ou não ser um nobre, apesar do fato de que a riqueza e a influência hereditárias ainda eram um fator preponderante na política da comunidade, mas, em todo caso, sua influência enquanto político - isto é, a influência da classe de políticos - começou a exceder aquela dos nobres não-políticos. Assim o indivíduo político não-nobre podia governar sobre indivíduos nobres não-políticos - eventualmente sobre indivíduos nobres políticos também - talvez sobre todos os nobres.

De algumas maneiras, a mobilidade social enquanto políticos deu aos plebeus oportunidades tremendas para a aquisição de poder. Mas tal poder tinha que ser ganho e mantido dentro da ordem tradicional da sociedade. O poder e a riqueza hereditários continuarem a exercer uma influência considerável. Vários ataques institucionais foram feitos contra clãs rivais por parte de tribos políticas/nobres em associação com tribos sacerdotais. Vários programas de opressão religiosa foram tentados às vezes também. Ainda assim a rebelião foi fomentada, de tempos em tempos, contra a ordem política por parte de clãs não-nobres que formariam sindicatos criminosos (e assim tribos rivais).

Ao longo do tempo os políticos aprenderam a lidar com isto de várias maneiras. Conforme poderosos rivais em potencial foram reconhecidos, eles foram sendo encorajados a formar associações tribais domesticadas adicionais além da religião - mas não além da lei. Guildas de mercadores, artesãos ou associações profissionais foram reconhecidas, licenciadas e às vezes subsidiadas pelo estado. Uma tribo domesticada especial de burocratas se formou em muitos estados para administrar os detalhes do estado abaixo das mais altas políticas controladas pelos políticos. A noção de uma corporação foi concebida - uma organização econômica que rivalizava o clã ou a tribo em tamanho, licenciada e respondendo ao estado em vez de a laços de parentesco e capaz de operar em qualquer campo de atividade. Indivíduos que se juntavam a estas tribos domesticadas eram encorajados a se envolverem profundamente nelas e a desenvolverem lealdades fortes a elas, que rivalizariam (e sempre que possível colocariam de lado) as lealdades de parentes de sangue. Os políticos começaram a fomentar a noção de que não apenas a tribo, mas agora também o clã, eram indesejáveis. Os políticos não podiam exatamente proibir os clãs. Não era prático. Mas eles poderiam fazer coisas para desencorajar comportamentos que facilitassem a formação de clãs.

O Ataque Final à Família

Conforme cada vez mais políticos "por esforço próprio" ganharam proeminência sem a ajuda de conexões familiares, surgiu entre eles um desejo de eliminar a concorrência de todo poder embasado na família. Os políticos começarem a extrair apoio dos burocratas do estado e de membros dos clãs "domesticados", especialmente os grupos ocupacionais e corporações (incluindo entidades corporativas "sem fins lucrativos" como universidades). Eventualmente, as famílias nobres foram expulsas do poder em revoluções ou através de uma lenta erosão de seus privilégios. Famílias cujo poder derivava da riqueza herdada foram sujeitas à tributação crescente. Leis foram instituídas para desencorajar o nepotismo na burocracia do estado.

A noção do "ideal de família" mencionada acima tem sido usada primariamente como uma maneira de impedir que clãs fortes se formem. Clãs (às vezes chamados de "famílias estendidas") são retratados como "antiquados" quando comparados com padrões da "família moderna" (às vezes chamada de "família nuclear"). Nos tempos modernos, foram encorajadas várias forças sociais que enfraqueceriam todas as conexões familiares, mesmo entre pais e crianças pequenas. A mais significativa destas foi implementada através do sistema de escolas públicas. Todos os cidadãos foram tributados para sustentar as escolas estatais, que recrutavam qualquer criança cujos pais não escolhessem, ou simplesmente não pudessem, pagar tanto essas taxas quanto taxas separadas para a educação privada. Dentro das escolas estatais as crianças foram encorajadas a se prepararem para trabalhar em um cenário burocrático, em que sua própria família tinha pouca ou nenhuma influência. Vantagens fiscais e regulatórias dadas à corporações e dinheiro de impostos dado a empresas estatais aumentaram os números de tais empregos grandemente e aumentaram o pagamento daqueles que trabalhavam neles. Enquanto isso, o aumento da carga tributária necessária para financiar essas políticas encorajou ambos os pais na maioria das "famílias nucleares" a trabalhar fora de casa, dando aos pais menos tempo e energia para supervisionar seus filhos. As crianças mais novas são enviadas para creches. Crianças mais velhas são recrutadas para times esportivos ou para as audiências de times esportivos, onde sua tendência a formar fortes lealdades de grupo é canalizada em direção a organizações atribuídas pelo estado. Quando adultas, este treinamento encoraja os indivíduos a verem os esportes como a única maneira apropriada de desafogar um desejo por competitividade em grupo, até que o estado esteja pronto para canalizar esta energia em uma guerra.

Nas sociedades industriais modernas, a lista de tribos domesticadas patrocinadas pelo estado se tornou gigantesca. Os políticos começaram a ver menos necessidades para o tribalismo embasado na religião e começaram a espremer os líderes religiosos para fora da aliança no topo da hierarquia política. Em um contra-ataque contra os políticos, muitos líderes religiosos começaram a se retratar como defensores conservadores da "família". Mas isto pode ser tão enganoso quanto o esforço do político de desviar os indivíduos para relações pseudo-familiares sustentadas pelo estado. A ênfase no casal casado com filhos que os dão líderes religiosos tende a escamotear filiações de sangue do tamanho de clãs. Em vez disso, os líderes religiosos querem uma estrutura em que cada família nuclear está associada com uma "congregação" religiosa do tamanho de um clã que, por sua vez, está associada com uma "denominação" maior do tamanho tribal. Nenhum líder religioso diz que clãs são ruins, mas são rápidos em afirmar que a lealdade às tradições da denominação religiosa deveria ter precedência sobre a lealdade aos parentes de sangue se um conflito entre estas duas ocorrer. "Famílias nucleares" não são realmente a fundação da sociedade neste modelo; elas são apenas outro exemplo de uma unidade familiar domesticada. Basicamente, estes "conservadores religiosos" estão menos preocupados em construir famílias fortes do que estão em construir uma ordem política para rivalizar com aquela dos políticos, baseada em estruturas sociais religiosas em vez de estruturas sociais estatais. E eles não são realmente opostos aos ditames estatistas para indivíduos ou para famílias. Estes líderes religiosos simplesmente desejam reorganizar o estado de modo que ele seja dominado por suas próprias instituições e de modo que o estado seja controlado por políticos com afiliações religiosas em vez dos políticos de propósito mais geral que atualmente dominam a maioria das sociedades industriais.

Assim se conclui minha discussão da história da família e das influências sobre a estrutura familiar que uma nação livre não conteria - as influências de um estado. Como a remoção da influência estatal faria diferença?

Famílias em uma Nação Livre

A emergência de uma nação livre não será simplesmente uma questão daqueles que acreditam nela escolherem criar uma. Mudanças tecnológicas e econômicas têm que continuar, continuam e continuarão a fornecer um ambiente cada vez mais adequado para comunidades sem estado. Podemos ver isto chegando uma vez que, em todo o mundo, há cada vez menos a percepção de se precisa de um protetor militar para não morrer de fome. E sem o apoio de cidadãos que sintam que eles têm que ter proteção militar, se torna mais difícil para um estado incutir o medo necessário para coagir o apoio de todas as outras pessoas. Então associações voluntárias, incluindo associações familiares, se tornarão mais comuns.

É provável que, em uma nação livre, alguns indivíduos escolham formas famílias moldadas sobre o modelo idealizado de família nuclear atualmente promovido por políticos em muitos estados. Outros poderiam adotar padrões muito similares àquelas de caçadores-coletores. Outros ainda provavelmente formarão afiliações familiares do tamanho de clãs ou de tribos. Não podemos prever exatamente como isso acontecerá. Mas podemos observar como, na ausência da coerção estatal, muitos padrões familiares parecerão mais atraentes do que o são agora.

A educação era originalmente um processo muito informal, fornecido exclusivamente pela família. Na maior parte das sociedades modernas, o estado recruta uma maioria das crianças para um sistema educacional administrado pelo estado. Em uma nação livre, mais pessoas escolheriam fornecer às suas próprias crianças uma educação com base familiar. A família pode ser organizada como uma família nuclear, mas poderia também ser uma família estendida ou clã. E, se for assim, o clã poderia não estar limitado a parentes de sangue, mas poderia ser embasado em laços de religião, residência ou afiliação ocupacional. Comunidades do tamanho de clãs intimamente associadas podem até ser organizadas simplesmente para oferecer oportunidades educacionais de qualidade para as crianças.

A produtividade econômica foi, em muitas épocas e lugares, coordenada pelas famílias. Fazendas familiares, empresas familiares e outras ocupações familiares tradicionais ainda desempenham uma parte reduzida nas economias modernas. Seria razoável esperar mais dessas em uma nação livre. Empresas familiares do tamanho de clãs poderiam se tornar muito comuns. Adicionalmente, os padrões de assistência financeira entre membros da família poderiam se tornar mais comuns do que são nas sociedades estatistas modernas. Muitos imigrantes, especialmente os asiáticos, com fortes tradições de clãs acham possível se alçarem à prosperidade nas economias industriais do Ocidente, congregando suas poupanças e investindo estas em empresas familiares.

Novas tecnologias aumentaram as oportunidades para indivíduos prosperarem conduzindo atividades profissionais com parceiros de negócios muito distantes. Até muito recentemente, os indivíduos frequentemente precisavam realocar suas residências para longe das raízes familiares tradicionais a fim de perseguir carreiras atraentes. Agora carreiras em espaço virtual permitem negócios em casa. Pessoas que desejam manter contato com parentes de sangue ou que desejam formas novas famílias com laços não-sanguíneos podem mais facilmente residir com sua escolha de membros da família, independentemente de com quem fazem negócios. Para estas pessoas, empresas familiares podem não ser atraentes, mas muitos membros da família poderiam morar a distâncias caminháveis uns dos outros. Clãs embasados em um estilo de vida comum reforçado pela residência comum poderiam se tornar populares desta forma. O zoneamento imobiliário do estado torna isto impraticável na maioria das áreas residenciais das sociedades industriais modernas, mas uma nação livre poderia ser bastante diferente.

Além de educação e habitação, os clãs podem se beneficiar de compra comum de outros bens e serviços. Considere, por exemplo, um plano de saúde em grupo para uma família muito grande. Números absolutos podem conseguir uma taxa de seguro melhor para o grupo. Adicionalmente, vários serviços de atendimento domiciliar poderiam ser arranjados mais eficientemente. O cuidado de todas as faixas etárias seria reforçado pelo fato de que a anamnese seria de conhecimento comum e pelo fato de que a atenção domiciliar para os familiares incapacitados poderia ser fornecida ao fazer com que vários dos outros membros tirassem um pouco de tempo livre cada um para ajudar. Nos estados-nações modernos as leis frequentemente dão a grupos com licenças de incorporação emitidas pelo estado um tratamento favorável do qual as famílias poderiam gozar se permitidas negociar arranjos completamente voluntários com profissionais e seguradoras de saúde.

Questões de estilo de vida estão, claro, muito mais abertas à escolha individual em uma nação em que o estado não usa impostos e regulamentação para favorecer um conjunto de práticas sobre outra. Nós na América temos todos familiaridade com controvérsias modernas sobre práticas de casamento "modernas". Mas devemos também considerar como possibilidade os muitos costumes seguidos pelas famílias humanas desde os dias dos caçadores-coletores. E, conforme fizermos isso, veremos que provavelmente haverá muito mais inovações enquanto novas famílias emergem para enfrentar os desafios dos tempos futuros. Se você estiver interessada em estimular sua imaginação sobre este ponto, apenas encontre um livro sobre "tradições de parentesco" na seção de antropologia de uma boa biblioteca. Você verá que, como eu mencionei no começo deste ensaio, a lista de possibilidades é gigante.

O ponto de uma nação livre, no entanto, é exatamente esse - tornar toda uma lista do que foi voluntariamente escolhido no passado, assim como qualquer arranjo voluntário concebido no futuro, disponível para cada indivíduo. Δ

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Revolução Industrial Caseira (Capítulo 2) - Moloch: O Modelo Sloanista de Produção em Massa

Moloch: O Modelo Sloanista de Produção em Massa



Introdução



O modelo de produção em massa carregava alguns fortes imperativos: primeiro, ele exigia produção em grandes lotes, operando o enormemente dispendioso maquinário produto-específico em capacidade total para minimizar os custos unitários (nas palavras de Amory Lovins, "o cada vez mais rápido fluxo unitário de materiais, do esgotamento à poluição”); e, segundo, ele exigia controle social e previsibilidade para garantir que a produção seria consumida, para que inventários crescentes e mercados saturados não fizessem as rodas da indústria pararem de girar. Utilizar a capacidade, utilizar a capacidade, isso é Moisés e os profetas. Eis Lewis Mumford quanto ao princípio:


Conforme os métodos mecânicos se tornaram mais produtivos, cresceu a noção de que o consumo deveria se tornar mais voraz. Por trás disto está uma ansiedade para que a produtividade da máquina não crie um excesso no mercado...


Esta ameaça é superada pelos "dispositivos do desperdício competitivo, do acabamento de má qualidade e da moda...".
Como descrito por Michael Piore e Charles Sabel, o problema era que recursos produto-específicos não podiam ser realocados quando o mercado mudava; sob tais condições, o custo da imprevisibilidade do mercado era inaceitavelmente alto. Mercados para a produção da indústria de produção em massa tinham que ser garantidos porque o maquinário altamente especializado não podia ser realocado para outros usos com a mudança na demanda. "Uma peça do maquinário moderno dedicado à produção de uma única parte não pode ser passado para outro uso, não importa o quão baixo o preço daquela parte caia ou quão alto o preço de outros bens suba".


A produção em massa exigia grandes investimentos em equipamento altamente especializado e trabalhadores estritamente treinados. Na linguagem da manufatura, estes recursos eram "dedicados": adaptados à fabricação de um produto em particular - frequentemente, na verdade, apenas a um feitio ou modelo. Quando o mercado para aquele produto em particular declinava, os recursos não tinham nenhum lugar para ir. A produção em massa era, portanto, lucrativa apenas com mercados que eram grandes o suficiente para absorver uma produção enorme de uma única mercadoria padronizada e estável o suficiente para manter os recursos envolvidos na produção daquela mercadoria continuamente empregados. Mercados deste tipo... não ocorriam naturalmente. Eles tiveram que ser criados.
.... Se tornou necessário que as firmas organizassem o mercado de maneira a evitar flutuações na demanda e criassem uma atmosfera estável para investimento lucrativo de longo-prazo.
...[Houve] duas consequências da descoberta dos americanos de que a lucratividade do investimento em equipamento de produção em massa depende da estabilidade dos mercados. A primeira destas consequências foi a construção, da década de 1870 até a década de 1920, de corporações gigantes, que poderiam equilibrar a demanda e a oferta dentro de suas indústrias. A segunda consequência foi a criação, duas décadas mais tarde, de um sistema Keynesiano para equiparar a produção e o consumo na economia nacional como um todo.


Ralph Borsodi argumentava que "[c]om a produção serial, ...o homem se aventurou em um mundo às avessas no qual


bens que se desgastam rapidamente ou que saem de moda antes que tenham a chance de se desgastarem parecem mais desejáveis do que bens que são duráveis e suportáveis. Bens agora têm que ser consumidos rapidamente ou descartados rapidamente, de modo que a compra de bens para tomar seu lugar mantenha a fábrica ocupada.
Pelo sistema antigo, a produção era meramente o meio para um fim.
Pelo novo sistema, a produção em si se tornou o fim.
Com a operação contínua do maquinário [da fábrica], quantidades muito maiores de seus produtos devem ser vendidas ao público. O público compra, normalmente, apenas tão rápido quanto consome o produto. A fábrica é, portanto, confrontada com um dilema; se ela fizer coisas bem, seus produtos serão consumidos, mas lentamente, ao passo que se ela os fizer precariamente, seus produtos serão consumidos rapidamente.
Ela naturalmente faz seus produtos tão precariamente quanto se atreve.
Ela encoraja a depreciação prematura.

terça-feira, 21 de julho de 2015

A distinção do libertarianismo de esquerda

Por Gary Chartier

Libertarianismo de esquerda, no sentido relevante, é uma posição que é simultaneamente esquerdista e libertária. Caracteriza compromissos esquerdistas afim de:

  • engajar-se em análise de classe e luta de classe;
  • combater o privilégio corporativo;
  • minar a pobreza estrutural;
  • abraçar responsabilidade partilhada por contestar a vulnerabilidade econômica;
  • afirmar a redistribuição de riqueza;
  • apoiar o empoderamento grassroots [N. T.: grassroot é um tipo de movimento social voluntário, espontâneo e feita de pessoas comuns, que não se baseia em chefia, partido político ou em organização social já existente.]
  • humanizar a vida profissional;
  • defender as liberdades civis;
  • combater a guerra às drogas;
  • apoiar os direitos dos profissionais do sexo;
  • contestar a violência policial;
  • promover o bem-estar ambiental e animal;
  • favorecer os direitos da criança;
  • rejeitar o racismo, sexismo, heterossexismo, nativismo e chauvinismo cultural; e
  • resistir a guerra, o imperialismo e o colonialismo.

Simultaneamente, caracteriza compromissos libertários afim de:


Uma posição esquerdista

Uma posição esquerdista é marcada, eu sugiro, por se preocupar a respeito da subordinação, exclusão, privação e da guerra. Libertários de esquerda adotam de corpo e alma esses interesses esquerdistas. Contudo, libertários de esquerda podem diferir de outros esquerdistas na medida que:

  • afirmam o valor independente de proteção rigorosa por reivindicações possessórias legítimas — como entre outras coisas, uma manifestação e uns meios de implementar a oposição esquerdista à subordinação e ao apoio esquerdista pela prosperidade partilhada amplamente, mas também quanto a restringir sobre os meios usados para buscar alguns objetivos esquerdistas;
  • fazem diferentes previsões sobre estabelecer um genuíno mercado liberto (rejeitar a visão de que um mercado seria um parque infantil corporativo);
  • oferecem diferentes explicações das origens e da persistência do fenômeno social condenável (por exemplo, de modo que os privilégios assegurados pelo estado para as elites ao invés de mercados dinâmicos, explicam a razão da pobreza persistente e da subordinação no ambiente de trabalho); e
  • estimulam diferentes soluções para esse fenômeno (caracteristicamente, uma combinação de solucionar a injustiça perpetrada e tolerada pelo estado) e fomentar ação voluntária e solidária.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas a consciência de que existe previsíveis vencedores e perdedores na sociedade e que sendo sorteado dentro dos dois campos não é, necessariamente, uma questão de sorte ou habilidade. Porém libertários de esquerda também enfatizam de que não é uma consequência do mercado de troca: é um reflexo da agressão acometida, ameaçada e tolerada pelo estado. Conquanto exista um aparato estatal no local, a riqueza pode capturá-la e utilizá-la para ganhar poder e mais riqueza enquanto o poderoso politicamente pode utilizá-la para adquirir riqueza e mais poder. A classe dominante — criada através da riqueza de pessoas empoderadas pelo estado, junto com funcionários do estado da alta posição — é definida por suas relações com o estado, que a capacita de forma principal. Combater essa classe, portanto, significa combater o estado.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas o reconhecimento de que grandes empresas desfrutam de privilégios substanciais que os beneficiam enquanto prejudicam o público. Mas eles salientam que a resposta adequada ao privilégio corporativo é eliminar subsídios, socorros bancários, regulamentações cartelizadas e outras características conduzidas pelo estado de ambientes legais, políticos e econômicos que se escoram no poder corporativo ao invés de reter os privilégios enquanto aumentam o envolvimento regulatório do estado na economia —que pode ser aguardada a criar novas oportunidades para a manipulação da elite, deixar o intacto o poder corporativo, sufocar alternativas arrivistas para os behemoths corporativos e empobrecer o público.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas tanto o ultraje sob a pobreza estrutural quanto o reconhecimento de que a riqueza e a ajuda bem ligada a modelar as regras do jogo político e econômico, em formas de que preservam as riquezas deles e influencia, enquanto torna e mantém os outros pobres. Mas libertários de esquerda enfatizam que a pobreza não é criada ou perpetuada pelo mercado liberto, mas pelo roubo de larga escala feitos pelos privilégios e restrições — em licenciar requisições para as regras de propriedade intelectual para os controles de utilização da terra para construir códigos — que impedem as pessoas de utilizarem suas habilidades e posses de foma efetiva ou elevar de forma dramática o custo de executá-lo. Eliminar a pobreza estrutural significa eliminar o privilégio assegurado pelo estado e reverter o roubo sancionado pelo estado.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas tanto o interesse compassivo a respeito da vulnerabilidade econômica quanto do reconhecimento de que pessoas vulneráveis não conseguem ser deixadas a prover a si próprios, que a responsabilidade partilhada por encontrar suas próprias necessidades é essencial de forma moral e prática. Porém eles salientam que arranjos de ajuda mútua tem tido sucesso a respeito da vulnerabilidade econômica. Eles também enfatizam que tais arranjos poderiam ser esperados a ter tido mais sucesso com a inexistência de impostos (as pessoas podem e irão gastar seu próprio dinheiro no auxílio da pobreza, porém provavelmente eles realizarão de forma muito mais eficiente e inteligente do que os funcionários estatais desenrolando as papeladas das receitas de imposto), regulamentações estatais de produção de pobreza e limitações sobre a escolha em áreas como a assistência médica.

Libertários de esquerda compartilham com outros esquerdistas a convicção de que a redistribuição de riqueza pode ser conveniente ou até mesmo necessária. Mas eles rejeitam que a redistribuição possa razoavelmente ser empreendida em produzir um padrão específico de distribuição de riqueza, de que isso possa ser realizado através da interferência agressiva por intermédio de posses adquiridas de modo justo de outras pessoas ou de que isso seja propriamente o trabalho do estado. Pelo contrário, eles sugerem que a redistribuição deve ser realizada pelo sistema legal (como restaurar às pessoas os recursos injustamente tomados deles ou de seus antepassados sob interesse, como fazem os ativos roubadas pelo estado ou adquiridos injustamente por compadres para apropriação, bem como rejeita a validade dos privilégios assegurados pelo estado que preserva as posições econômicas bem ligadas enquanto mantém os outros pobres), através da ajuda mútua solidária e através da tendência de um mercado libertado de privilégio para "engolir os rico".

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas — dos movimento da Nova Esquerda e Ambientalista, digo — a convicção de que a tomada de decisão deveria ser descentralizada, de que as pessoas devem ser capazes de participar no máximo grau possível em formar decisões que afetam suas vidas. Mas ele sustentam que esses meios que, contra um pano de fundo de assegurar direitos pré-políticos, toda associação deveria ser consensual. De cima para baixo, a tomada de decisão forçada é possivelmente ser frustrada pela falibilidade dos tomadores de decisão e de suas tendências em buscar objetivos de auto-interesse às custas do público. Unidades políticas de menor escala são mais humanizantes do que as de grande escala, mas a descentralização deve de forma final, ser a descentralização ao nível da pessoa em especial.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas de que locais de trabalho hierárquicos não buscam o empoderamento dos trabalhadores e são decepcionantes, e que apoiar locais de trabalhos hierárquicos, portanto, é, geralmente, moralmente condenável. Porém eles salientam que locais de trabalho hierárquicos provavelmente estão mais inclinados a ação do estado. As hierarquias limitam a capacidade dos trabalhadores em usar seus conhecimentos e habilidades para responder flexível e eficientemente aos desafios de produção e distribuição e a atender as necessidades dos consumidores. As ineficiências das hierarquias iriam tornar tais características em aspectos menos comuns da vida profissional e aumentariam a probabilidade de que pessoas seriam capazes de escolher alternativas oferecendo mais liberdade e dignidade (emprego autônomo, trabalhar em associações ou cooperativas), ou seja, sem os privilégios que reduzem os custos de manter hierarquias e aumentam os custos em optar fora delas (como por tornar o emprego autônomo mais dispendioso e, com isso, mais arriscado). A ação estatal também redireciona a riqueza para aqueles interessados, visto que eles e as pessoas iguais a eles governam o local de trabalho. E as regulamentações estatais sobre sindicatos limitam as formas de como os sindicatos podem desafiar hierarquias do local de trabalho.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas um compromisso às liberdades civis. Porém eles salientam que o estado é um inimigo previsível destas liberdades e que a forma mais efetiva de salvaguardá-las está em proteger o controle das pessoas sobre seus corpos e posses adquiridas legitimamente.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas uma convicção de que a guerra às drogas é destrutiva, racista e absurdamente cara. Porém enfatizam que a melhor proteção contra campanhas proibicionistas de todos os tipos está em respeitar o controle das pessoas sobre seus corpos e posses adquiridas legitimamente. E que limites baseados em agressão sobre todos os desfavorecidos, exceto de trocas voluntárias, deveriam ser proibidos.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas uma preocupação pelo bem-estar dos profissionais do sexo. Porém eles observam que os agentes estatais se empenham na violência contra os profissionais do sexo e que as políticas estatais, incluindo a criminalização e a regulamentação, criam ou intensificam os riscos associados com o trabalho sexual.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas uma veemente oposição à violência policial e a corrupção. Porém eles enfatizam que isso não é simplesmente um reflexo da pobre fiscalização ou da presença de "algumas maçãs podres" nas agências policiais. Mas contrário, tanto um reflexo de posições estruturais de tais agências como garantidoras do poder estatal e da falta de responsabilidade criada tanto pela existência, de fato, de diferenças substanciais nos padrões para o uso de força pelos oficiais de polícia e outros, quanto pelo status monopolísticos das agência de polícia.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas preocupações contínuas com a qualidade ambiental e o bem estar dos animais. Porém eles salientam que danos ambientais podem ser prevenidos e remediados sem envolvimento estatal, contanto que rigorosas proteções legais para corpos e posses legitimamente adquiridas estejam no local. Que a ação estatal não é necessária para proteger animais não-humanos de abusos e que as ações e políticas estatais são, em geral, diretamente responsáveis para proteger poluidores, promover danos ambientais e prejudicar animais não-humanos.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas um compromisso ao bem estar das crianças. Mas os libertários de esquerda sublinham a importância de respeitar os direitos da criança em controlar seus próprios corpos e posses — rejeitando tanto as tentativas em tratar as crianças como propriedades de seus pais quanto a ação estatal paternalista, que interfere injustificadamente por meio da liberdade das crianças — e enfatizam a posição a qual o estado não é o protetor das crianças mas é responsável em diversas formas por ameaças significantes à sua liberdade e bem estar, notavelmente através da educação obrigatória.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas a consciência de que o racismo, sexismo, heterossexismo, nativismo e chauvinismo nacional são moralmente repugnantes. Contudo, eles enfatizam o papel crucial do estado em criar, perpetuar e capitalizar sobre essas formas de injustiça, embora salientam que eliminando os suportes que o estado fornece para a conduta preconceituosa dirigida, isso possa desempenhar um papel vital em combater a discriminação. Desconfiados sobre o estado e sobre o respeito das reivindicações possessórias legítimas, eles salientam ações solidárias não-agressivas como os meios apropriados de lidar com a discriminação contínua. Eles fomentam a igualdade no casamento enquanto buscam a saída do estado no próprio assunto. E embora se juntam a outros esquerdistas em se opor a xenofobia, eles salientam que todas as fronteiras deviam ser demolidas para permitir a migração sem entraves.

Libertários de esquerda partilham com outros esquerdistas uma impetuosa oposição à guerra e ao império e uma preocupação pelas vítimas de ambos, incluindo pessoas nativas de todo o mundo. Mas eles enfatizam as ligações entre políticas militares, imperialismo e colonialismo e as violações contínuas do estado sobre as liberdades civis e econômicas — sem mencionar o prejuízo com a classe dominante. A interferência com a conduta pacífica das pessoas dentro das fronteiras estatais é condenável, por muitas das mesmas razões como a guerra além das fronteiras do estado. Como uma forma de escravização, o alistamento militar obrigatório é injusto. A liberdade para comercializar tende a reduzir a probabilidade de guerra. E política militar é uma provável consequência da operação do estado, que busca previsivelmente expandir a influência pela força. A oposição esquerdista à guerra deveria ser vista como ocasionar oposição ao estado por si só.

Uma posição libertária

Uma posição libertária é marcada, eu sugeria, pelo apoio na igualdade de autoridade, por rigorosas proteções pelas reivindicações possessórias legítimas e pela cooperação pacífica e voluntária, incluindo cooperação na e através da troca. Libertários de esquerda partilham esses compromissos. Porém libertários de esquerda podem diferir de outros libertários na medida em que eles:

  • fazem predições diferentes sobre os prováveis efeitos de libertar as pessoas e eliminar a agressão institucionalizada que os previne de cooperar pacificamente e voluntariamente (salientando a contingência de locais de trabalho hierárquicos, por exemplo);

  • chamam atenção para determinadas consequências geralmente aceitas sobre construir uma sociedade livre (digo, por enfatizar não apenas a liberdade mas também a solidariedade, diversidade e também assistência à pobreza como entre os resultados de eliminar o privilégio assegurado pelo estado);

  • informam diferentes relatos históricos ou sócio-científicos sobre as causas e a dinâmica do fenômeno social (de modo que a distribuição existente de riqueza é vista como um produto da ação estatal em vez da virtude individual); e

  • tratam certos tipos de fenômeno social (discriminação arbitrária, por exemplo) como moralmentecondenável e se mostram a favor de reações não-agressivas, porém de acordo à esses fenômenos.

Libertários de esquerda partilham com outros libertários um compromisso à igualdade de autoridade — pelo ponto de vista de que não existe direito natural para governar e que autoridade não-consensual é previsivelmente ilegítima. O igualitarismo naturalmente emite um compromisso ao anarquismo, uma vez que a autoridade do estado não é consensual. Contudo, libertários de esquerda enfatizam que o compromisso para a igualdade moral, que sublinha a crença na igualdade de autoridade, deve ocasionar a rejeição da subordinação e exclusão sobre a base da nacionalidade, gênero, raça, orientação sexual, status do local de trabalho ou outras características irrelevantes. Embora os libertários de esquerda concordam com outros libertários de que as decisões das pessoas em evitar se associar com outras por causa de tais características não deve ser interferida por meio da agressividade, libertários de esquerda enfatizam que tais decisões geralmente podem ainda estar sujeitas a crítica moral e deveria se combatidautilizando meios não-agressivos.

Libertários de esquerda partilham com outros libertários um compromisso para proteções rigorosas pelas reivindicações possessórias legítimas à objetos físicos. Porém eles rejeitam a "propriedade intelectual" e enfatizam que proteções possessórias não devem cobrir objetos adquiridos com ajuda decisiva do estado, de outra forma através do uso da violência ou daquelas claramente abandonadas. Eles tornam claro de que existe limites justos para coisas que pessoas possam fazer para proteger suas posses (se tornar um transgressor automaticamente não o torna passível à violência). Eles observam que se as reivindicações à terra devem ser realizadas por indivíduos ou grupo, só podem ser determinadas à luz da economia de situações específicas e das formas de reivindicações específicas que estejam estabelecidas. E eles salientam que, ao passo que as reivindicações possessórias legítimas deviam ser respeitadas, é bem possível combater a interferência agressiva com a utilização das posses de alguém em uma dada maneira, embora contestando de modo que utilize de forma não agressiva.

Libertários de esquerda partilham com outros libertários um compromisso a um modelo de vida social arraigado emcooperação pacífica e voluntária. Mas eles diferem de outros libertários em enfatizar que, embora a força possa ser justamente utilizada somente em resposta à agressão, cooperação pacífica e voluntária é um ideal moral com implicações que vai além da simples não-agressão. Libertários de esquerda insistem que as associações de todos os tipos sejam estruturadas em formas que confirmam a liberdade, dignidade e individualidade de todos os participantes e, portanto, permita aos participantes a opção de não somente de sair mas também de voz — de influenciar as trajetórias das associações e exercer tanto o arbítrio individual deles quanto for possível.

Embora rejeitam o capitalismo, libertários de esquerda partilham com outros libertários um reconhecimento entusiástico do valor dos mercados. Eles salientam que ambos os lados participam de uma troca voluntária porqueeles preferem e acreditam que isso irá beneficiá-los. Que os preços fornecem excelentes guias para produtores e distribuidores (muito melhor do que qualquer coisa que um planejador central poderia oferecer) e de que as pessoas devem internalizar os custos bem como os benefícios de suas escolhas. Mas eles enfatizam que o plano de fundo de injustiça pode distorcer os mercados e restringir as opções dos comerciantes. Eles também observam que a troca comercial não esgota a esfera da cooperação pacífica e voluntária e que as pessoas podem e deveriam cooperar de diversas formas — lúdica, solidária e compassiva — que não necessite ser organizadas junto a linhagens comerciais.

Uma visão transformada

Libertários de esquerda abraçam e transformam ideais esquerdistas e libertários.

Muitos esquerdistas e libertários já partilham de alguns compromissos: oposição à guerra, ao império e aos privilégios corporativos. Apoiam as liberdades civis e o empoderamento grassroots. No entanto, muitos esquerdistas e libertários também abraçam, e geralmente partilham, de várias suposições errôneas.

Libertários de esquerda contestam estas suposições, embora abraçando os compromissos de partilhas esquerdistas e libertários. Eles buscam demonstrar que é razoável à ambos combater a pobreza estrutural e favorecer os mercados libertos, buscar tanto a dignidade no local de trabalho quanto a proteções rigorosas pelas reivindicações possessórias legítimas, abraçar a liberdade de associação embora combatendo a discriminação arbitrária, fomentar tanto a paz quanto a liberdade econômica, ligar a rejeição da guerra e do imperialismo com apoio pela cooperação pacífica e voluntária em todos os níveis.


Por endossar preocupações esquerdistas e libertárias e contestar suposições que as tornam difíceis para esquerdistas abraçar o libertarianismo e para libertários se tornarem esquerdistas, libertários de esquerda oferecem uma visão provocante de um apelo político e de um mundo marcado pela maior liberdade e justiça.

Traduzido por Rodrigo Viana