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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Qual Laissez Faire?


Qual Laissez Faire?

Sheldon Richman (2010)

Escrevendo no The Guardian no último janeiro, sob a manchete "Caribbean Communism v. Capitalism" ("Capitalismo vs. Comunismo no Caribe"), o respeitado jornalista Stephen Kinzer começou seu artigo assim:

Visitar a infeliz Cuba é especialmente instigante para qualquer um que esteja familiarizado com seus infelizes vizinhos. Os cubanos vivem vidas difíceis e têm muito do que reclamar. E também o têm os jamaicanos, dominicanos, haitianos, guatemaltecos, hondurenhos, salvadorenhos e outros na bacia do Caribe que vivem sob governos capitalistas. Quem está pior? Uma pessoa comum vive melhor em Cuba ou em um país capitalista próximo?[1]

Muitas pessoas leriam isso sem se deter, mas presumivelmente não os libertários. A Jamaica, a República Dominicana, o Haiti, a Guatemala, Honduras e El Salvador são países capitalistas? A afirmação prosaica de Kinzer parece conflitar com outras evidências. Por exemplo, o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation (que exagera o grau de liberdade econômica dos países) classifica a República Dominicana, a Jamaica, El Salvador e a Guatemala como "moderadamente livres" (e não "livres" ou "muito livres") e Honduras e o Haiti como "muito pouco livres". Então, como eles podem ser "capitalistas" – a menos que o capitalismo e a liberdade sejam duas coisas diferentes?
            Pode-se inferir do artigo de Kinzer que ele classifica qualquer país como "capitalista" contanto que o socialismo marxista não seja sua ideologia oficial. Então ele afirma, "Comparando os dois sistemas políticos e sociais também nos lembra que, para muitas pessoas no mundo, uma vida verdadeiramente gratificante é inatingível... A melhor esperança para a Cuba há tanto tempo comunista e para seus vizinhos há tanto tempo capitalistas seria aprender um com os outros".
            Meu propósito aqui não é focar nas afirmações curiosamente positivas de Kinzer sobre Cuba e sua "rede de segurança social", mas sim em seu uso da palavra "capitalista". Ele aparentemente considera essa designação tão incontroversa que não sente qualquer necessidade de justificá-la ou sequer definir o termo.
            Kinzer, contudo, não é uma anomalia. Considere o livro de Richard Posner sobre o recente desastre financeiro, A Failure of Capitalism ("Uma Falha do Capitalismo"). Posner não é nenhum jornalista com tendências esquerdistas. Ele é um juiz federal com uma longa associação com a Universidade de Chicago e o movimento mercadista de lei-e-economia. E, ainda assim, aqui está ele, culpando o "capitalismo" pelos atuais problemas econômicos e, como resultado, adotando o keynesianismo. Ele escreve em seu prefácio, "Estamos aprendendo com ela [a "depressão"] que precisamos de um governo mais ativo e inteligente para impedir que nosso modelo de economia capitalista saia dos trilhos. O movimento para se desregulamentar a indústria financeira foi longe demais ao exagerar a resiliência – os poderes auto-curativos – do capitalismo laissez faire".
            Posner dificilmente é um lobo solitário no seu lado do espectro político. Sintonize nos programas financeiros no Fox News Channel e na Fox Business Network qualquer dia e você ouvirá Lawrence Kudlow, Ben Stein ou uma série de outros conservadores econômicos avisando que as políticas de Barack Obama ameaçam minar "nosso sistema capitalista". Isso certamente implica que há hoje um sistema capitalista para se minar.

O Que É o Capitalismo?

            O que, então, é este sistema chamado de "capitalismo"? Ele não pode ser o livre mercado, porque não temos um livre mercado. Hoje a mão do governo está por toda a economia – do dinheiro e bancos aos transportes e à manufatura, à agricultura, aos seguros, à pesquisa básica, ao comércio mundial. Se o significado de um conceito consiste em como ele é usado (não há nenhuma forma platônica a ser adivinhada), "capitalismo" não pode significar "o livre mercado". Em vez disso, ele designa um sistema no qual os meios de produção são, de jure, propriedade privada. Deixada em aberto fica a questão da intervenção do governo. Desta forma, as frases "capitalismo de livre mercado" e "capitalismo laissez faire" tipicamente não são vistas como redundantes e as frase "capitalismo de estado" ou "capitalismo de compadres" não são vistas como contradições. Se, sem controvérsia, o "capitalismo" pode receber os qualificadores "de livre mercado" e "de estado", isso nos diz algo. (Isso é verdadeiro independentemente do que os dicionários dizem. Pelo menos desde a época de Samuel Johnson, os lexicógrafos entenderam que os dicionários devem ser descritivos e não prescritivos. Novas edições rotineiramente modificam as definições à luz do uso atual.)
            Este não é apenas um argumento semântico – pergunta-se sobre o valor de se passar tempo argumentando se o que temos "realmente" é capitalismo ou não – e é mais do que uma questão de retórica ou da arte da persuasão – por mais importante que ela seja. É uma questão de entendimento histórico, pois, embora Ludwig von Mises e Ayn Rand tenham tentado, com grande energia, fazer o "capitalismo" ser entendido como "o livre mercado", eles estavam nadando contra a corrente. Como o historiador Clarence Carson escreveu em The Freeman nos anos 1980, "'Capitalismo'... não tem um significado comumente aceito, não obstante os proponentes dele em contrário. Na situação atual, ele não pode ser usado com precisão no discurso".
            Carson se perguntou por que alguém chamaria um sistema no qual a produção e a troca são conduzidas de maneira privada de "capitalismo". "Até onde eu posso compreender", ele escreveu, "não há nenhuma razão convincente para o fazer. Não há nada indicado em tais arranjos que sugira por que o capital, entre os elementos da produção, deveria ser destacado com ênfase. Por que não a terra? Por que não o trabalho? Ou, de fato, por que qualquer um dos elementos deveria ser destacado?".
            Há outras características curiosas da palavra. "Quando um 'ismo' é adicionado a uma palavra, ele denota um sistema de crenças e, provavelmente, o que veio a ser chamado de ideologia", Carson escreve. Mas um capitalista não é alguém que defende o capitalismo, da maneira em que um socialista é alguém que defende o socialismo. Em vez disso, ele é alguém que tem capital. Um capitalista pode ser um socialista sem contradição.
            Também é útil ter em mente que a palavra não foi inicialmente adotada por defensores do livre mercado; isso foi aparentemente um fenômeno do século XX. De acordo com o Oxford English Dictionary, a palavra "capitalista" veio primeiro e foi usada de maneira pejorativa no final do século XVIII. Claro, Marx usou ela e palavras relacionadas como condenação. Mas não foram apenas oponentes da propriedade privada que usaram a palavra dessa maneira. De maneira mais notável, Thomas Hodgskin (1787-1868), um liberal de livre mercado e mentor de Herbert Spencer, precedeu Marx nesse uso. Por "capitalista" ele queria dizer alguém que controlava o capital e explorava o trabalho como resultado do privilégio do Estado na violação do livre mercado.

Uma Breve História do Capitalismo

            Por mais importante que a teoria econômica seja para entender a história, ela não é nenhum substituto da história. Saber como os livres mercados funcionam não pode, por si só, nos dizer se o livre mercado existiu em qualquer dado período histórico. Mises e Rand não obstantes, desde os primórdios o capitalismo histórico tem sido associado com a intervenção governamental em favor de latifundiários e donos de fábricas. O capitalismo está, é claro, ligado à Revolução Industrial, que começou na Inglaterra, mas o surgimento do industrialismo na Inglaterra se seguiu a expropriações massivas de pequenos fazendeiros das terras sobre as quais eles haviam lutado por gerações para adquirir direitos. Como outro Carson, Kevin Carson, escreveu no The Freeman,

No Velho Mundo, especialmente na Grã-Bretanha... a expropriação da maioria camponesa por uma oligarquia agrária politicamente dominante ocorreu ao longo de diversos séculos no final do período medieval e no início do moderno. Ela começou com o cercamento dos campos abertos no final da Idade Média. Sob os Tudors, feudos da Igreja (especialmente terras monásticas) foram expropriados pelo estado e distribuídos entre a aristocracia agrária. Os novos "donos" despejaram ou cobraram alugueis extorsivos dos camponeses.

            O processo continuou com as "reformas" agrárias e os Cercamentos Parlamentares até o século XIX, transformando lavradores do solo (aqueles que misturavam seu trabalho com a terra) em inquilinos.
            As terras comuns foram "privatizadas" pelo Estado (isto é, dadas aos privilegiados) às custas das pessoas que anteriormente tinham direitos consuetudinários de longa data a elas. Não restou outra escolha para fazendeiros de subsistência independentes e artesãos além de cultivar para outra pessoa ou trabalhar nas novas fábricas, com um pouco de sua renda retirado por senhorios e empregadores. O proletariado nasceu, como F. A. Hayek reconhece. Por padrões libertários, isso constitui exploração porque o poder do Estado jaz por trás dos apuros dos trabalhadores. A oportunidade de trabalhar nas fábricas é frequentemente apresentada como uma bênção, mas ela parece menos benigna quando o roubo de terras é reconhecido. Além disso, há evidência que os novos donos de fábricas obtiveram um pouco de seu capital dos interesses do "antigo dinheiro", mas mesmo que esse não fosse o caso, os industriais se beneficiaram da interferência do Estado com o direito à terra dos pequenos fazendeiros. Membros da classe dominante e observadores frequentemente expressavam preocupação que ninguém fosse escolher trabalhar para uma outra pessoa em uma fábrica desagradável se ele pudesse trabalhar para si mesmo na terra ou como um artesão. Eles compartilhavam a visão do escritor britânico do século XIX, E. G. Wakefield: "Onde a terra é barata e todos os homens são livres, onde todo mundo que assim deseja pode obter um pedaço de terra para si, não apenas o trabalho é muito caro, no que diz respeito à parte dos trabalhadores no produto, mas a dificuldade é obter trabalho combinado a qualquer preço que seja".
            O laissez faire de forma alguma começou neste ponto. Kevin Carson escreve,

Além disso, empregadores fabris dependiam de medidas autoritárias severas por parte do governo para manter o trabalho sob controle e reduzir seu poder de barganha. Na Inglaterra, as Leis de Assentamento [denunciadas por Adam Smith] agiam como um tipo de sistema de passaportes internos, impedindo que os trabalhadores viajassem para fora da paróquia de seu nascimento sem permissão do governo. Assim, os trabalhadores eram impedidos de "votar com seus pés" em busca de trabalhos que pagassem melhor...
            As Leis de Combinação, que impediam os trabalhadores de se associarem para barganhar com os empregadores, eram aplicadas inteiramente pelo direito administrativo, sem quaisquer das proteções do devido processo do direito consuetudinário...

            Assim, o Estado intervencionista manchou a emergência da era industrial. (Ela teria emergido espontaneamente de outra forma.)
            Como Albert Jay Nock escreveu,

Os horrores da vida industrial da Inglaterra no último século [XIX] fornecem um depoimento permanente para os viciados em intervenção positiva. O trabalho infantil e feminino nos moinhos e nas minas; Coketown e o Sr. Bounderby; salários de fome; horas mortais; condições vis e perigosas de trabalho; navios-caixões comandados por rufiões – todos estes são atribuídos, sem hesitação, por reformistas e publicistas, a um regime de individualismo rude, concorrência desenfreada e laissez-faire. Isto é um absurdo patente, pois nenhum regime assim jamais existiu na Inglaterra. Eles se deviam à intervenção primária do Estado, por meio da qual a população da Inglaterra foi expropriada da terra; deviam-se à remoção estatal da terra da concorrência com a indústria pelo trabalho...

Assim, como Kevin Carson escreve,

O capitalismo, surgindo como uma nova sociedade de classe diretamente a partir da velha sociedade de classe da Idade Média, foi fundado sobre um ato de roubo tão massivo quanto a anterior conquista feudal da terra. ... Desde o início da revolução industrial, o que é nostalgicamente chamado de "laissez-faire" foi, na verdade, um sistema de contínua intervenção estatal para subsidiar a acumulação, garantir o privilégio e manter a disciplina do trabalho.

A mancha da intervenção governamental na atividade econômica foi transferida para as colônias britânicas na América do Norte. A natureza radical da Revolução Americana mascarou a luta de classes dentro da sociedade colonial americana, entre o que o historiador Merrill Jensen chamou de "radicais" e "conservadores" em seu livro The Articles of Confederation: An Interpretation of the Social-Constitutional History of the American Revolution, 1774–1781 ("Os Artigos da Confederação: Uma Interpretação da História Social-Constitucional da Revolução Americana, 1774-1781"). (A análise de classe não se originou com Marx, mas com radicais laissez faire anteriores, Charles Comte e Charles Dunoyer.) Uma elite politicamente conectada veio a dominar cada colônia, vivendo de grandes concessões de terra e de impostos. O poder e a terra foram distribuídos como favores reais, e os ricos recipientes se enraizaram. No Norte, a classe dominante consistia de mercadores, no Sul de grandes cultivadores. Jensen nota que, na Pensilvânia, por exemplo, "os mercadores haviam tentado por vários meios derrubar o sistema de mercados e leilões, a fim de conseguirem um monopólio sobre o comércio varejista". Naquela época, como agora, as empresas estabelecidas preferiam cartéis à concorrência livre e imprevisível. As elites vieram a pensar sobre si mesmas como a aristocracia sábia, destinada a governar, e não estavam ansiosas para entregar o poder quando os radicais primeiro começaram a pressionar pela independência da Grã-Bretanha. Ficar no império era visto como a chave para se manter o poder político local.
            Os radicais e os conservadores, assim, tinham interesses econômicos e políticos diferentes e visões diferentes sobre a independência da Grã-Bretanha. Quando as usurpações britânicas tornaram intolerável uma associação continuada com o império até mesmo para muitos conservadores, esses grupos então discordaram sobre como a nova nação deveria ser governada. Os interesses mercantis tendiam a favorecer a centralização nacionalista, que era vista como a melhor maneira de manter seu poder e restringir os democratas radicais. Eles esperavam emular o sistema mercantilista britânico. Em contraste, a massa do povo, que se sentia aproveitada por esses interesses, tendia a favorecer a descentralização, uma vez que acreditavam que tinham uma chance melhor de justiça e propriedade com o autogoverno local. Desta forma, o que Jensen chama de "revolução interna" – o esforço para se quebrar o domínio das elites nas colônias – foi pelo menos tão importante quanto a externa, contra os britânicos.

A Constituição

            Dada essa imagem da pré-independência, não deveria ser nenhuma surpresa que a América independente não era nenhum bastião de libertarianismo laissez faire. De fato, o esforço para se derrubar os Artigos da Confederação – com seu semigoverno central fraco, que carecia do poder de tributar a população diretamente ou de regulamentar o comércio – e estabelecer um governo central bem mais forte sob a Constituição dos E.U.A. foi uma continuação da luta interna que havia ocorrido antes da Revolução. Para dar apenas uma indicação aqui, erroneamente se acredita que a força condutora por trás da Constituição era a determinação de se criar uma zona de livre comércio entre os estados. Assim, de acordo com o relato padrão, a Cláusula do Comércio foi a resposta a barreiras comerciais generalizadas entre os estados. Mas diversos problemas se apresentam. Primeiro, os Estados Unidos já eram uma zona de livre comércio (com a exceção de raras restrições a bens europeus passando de um estado para outro).
            Segundo, ao argumentar a favor da retificação da Constituição nos Artigos Federalistas, Alexander Hamilton reclamou que as tarifas eram baixas demais, não altas demais:

É, portanto, evidente que um governo nacional seria capaz, com muito menos custo, de estender as taxas sobre importações, para além de comparações, mais do que seria praticável aos Estados separadamente, ou a quaisquer confederações parciais: Até agora, creio que possa ser seguramente afirmado que essas taxas não excederam, na média, em qualquer Estado, três por cento... Parece não haver nada para dificultar que elas sejam aumentadas neste país a pelo menos o triplo de sua quantia atual... [O Federalista 12; ênfase adicionada].

            Em outras palavras, a concorrência entre os estados estava mantendo as tarifas baixas, ao passo que unir os estados sob um governo central forte refrearia essa concorrência, ao estilo de um cartel, e permitiria tarifas mais altas. (De fato, o primeiro ato econômico do novo Congresso em 1789 – em 4 de julho! – foi uma tarifa protetora abrangente, de 5 a 10 por cento. Ela foi chamada de "segunda Declaração de Independência".)
            Terceiro, o historiador Calvin Johnson observa,

Nos debates originais sobre a adoção da Constituição, a "regulamentação do comércio" era usada, quase exclusivamente, como uma cobertura de palavras para propostas mercantilistas específicas, relacionadas ao transporte em águas profundas e ao comércio exterior. A Constituição foi escrita antes que Adam Smith, o laissez faire e o livre comércio viessem a dominar o pensamento econômico, e a Cláusula do Comércio extrai seu significado original da anterior tradição mercantilista... Barreiras ao comércio interestadual, contudo, não eram uma questão notável nos debates originais. [Ênfase adicionada.]

            A filosofia de descentralização de Thomas Jefferson podia ser a filosofia do povo, mas as elites poderosas em todos os novos estados estavam no campo de Hamilton. Como resultado, a intervenção governamental em partes críticas da economia (melhorias internas e, mais tarde, subsídios às ferrovias) foram proeminentes. Quando Jefferson e, mais tarde, os jeffersonianos ganharam poder, eles foram capazes de reverter um pouco do dano, mas o nacionalismo e o estatismo de Alexander Hamilton e Henry Clay estavam sempre nos flancos, aguardando Lincoln ser eleito.

Distribuindo Terra

            Uma estória reveladora pode ser encontrada na disposição das terras federais. Como observado, o favoritismo político e a especulação fundiária, que gerava fortunas, eram escandalosas no período colonial. As coisas mudaram pouca depois da Revolução. Apesar da impressão dada pelo Homestead Act de 1862, a maior parte da terra – e certamente as melhores terras – foram dadas ou vendidas em termos amorosos para interesses econômicos influentes, mais proeminentemente, mas não exclusivamente, aos interesses ferroviários. Desnecessário dizer, os sem-terra e sem poder não estavam entre os compradores.
            Como o historiador Paul Wallace Gates escreveu em 1935,

[A] Lei do Homestead não mudou completamente nosso sistema fundiário... [Sua] adoção meramente superpôs ao antigo sistema fundiário um princípio a partir da harmonia com ele... Virá a aparecer que a Lei do Homestead não acabou com o sistema de leilão ou com as vendas em dinheiro, como geralmente se assume, que a especulação e a monopolização da terra continuaram depois de sua adoção, talvez de maneira tão generalizada quanto antes, e, dentro assim como fora da lei, que o verdadeiro homesteading ficou geralmente confinado às terras menos desejáveis, distantes das linhas férreas, e que o arrendamento de fazendas se desenvolveu nas comunidades de fronteira, em muitos casos, como resultado da monopolização da terra.

            As grandes propriedades produzidas por essas políticas, partes das quais foram mantidas ociosas, limitaram as oportunidades daqueles sem poder e influência, aumentando sua dependência de empregadores e senhorios. A situação, assim, tem alguma semelhança com aquela da Inglaterra.
            À parte da questão da terra, sabemos do trabalho de Jonathan R. T. Hughes e outros que, desde o princípio, o entrelaçamento do governo nas economias das colônias e dos estados era comum. Hughes escreveu em The Governmental Habit Redux ("O Hábito Governamental Revisto"),

A maioria dos estudos dos controles modernos não-mercadistas consideram que a história relevante se estende de volta até o New Deal. Alguns retornam mais, até o final do século XIX. Mas, na verdade, o hábito poderoso e contínuo de controle não-mercadista na nossa economia remonta a séculos...

            Assim, durante o período colonial, virtualmente todo aspecto da vida econômica estava sujeito a controles não mercadistas. Um pouco dessa tradição não sobreviveria, um pouco se tornaria ainda mais poderoso, ao passo em que um pouco ascenderia ao nível de controle federal. O pano de fundo colonial era como um pool genético institucional. A maior parte das instituições e práticas coloniais continua a viver hoje de alguma forma, e há muito pouco nas maneiras do controle não-mercadista que não tenha um precursor colonial ou inglês. A história americana não começou em 1776.

A Expansão do Capitalismo

            Revisando algumas dúzias de estudos sobre intervenção econômicas estadual e local no século XIX, o historiador Robert Lively concluiu em 1955,

O Rei Laissez Faire, então, de acordo com esses relatos, não estava apenas morto; o relato consagrado de seu reino havia todo sido um erro. O erro foi um de proporções monumentais, uma mistura de dados negligenciados, distorção interessada e preconcepções persistentes.... As energias substanciais do governo... foram empregadas mais frequentemente para a ajuda do que para o entrave das empresas. O tema amplo e bem documentado revisado aqui é aquele do apoio público ao desenvolvimento empresarial.

            Na segunda metade do século XIX, a América se moveu para mais longe, não mais perto, do laissez faire, graças à adoção, feita por Lincoln, do Sistema Americano estatista de Henry Clay, que incluía um banco nacional, melhorias internas, tarifas e, por um tempo, um imposto de renda. Como Joseph R. Stromberg escreve, "Na verdade, a Era Dourada testemunhou um 'grande churrasco', para usar a frase de Vernon Louis Parrington, enraizado no estatismo desenfreado dos anos de guerra, cujos participantes se defendiam com retórica spenceriana, enquanto seguravam com as duas mãos".
            O século XX apenas acelerou este processo ao deslocá-lo ainda mais para o nível nacional. A cumplicidade das grandes empresas nas "reformas" da Era Progressista está bem documentada, graças a Gabriel Kolko e outros. Se você contar favores para as principais empresas como intervenção governamental, então não houve nenhum laissez faire no século XX, mesmo durante os anos de Harding-Coolidge. A ficha intervencionista de Herbert Hoover é bem conhecida. E deve se entender que as grandes empresas apoiaram a eleição de Franklin Roosevelt em 1932 e sua administração durante seu período inicial. A corporativista Administração de Recuperação Nacional era do seu agrado e, para algumas, não foi longe o suficiente. Caso se acredite que, nas agonias da Depressão, a América poderia ter adotado uma nacionalização explícita dos meios de produção, então pode-se concluir que Rooselvelt de fato "salvou o capitalismo", mas não no sentido do livre mercado, que já havia sido comprometido virtualmente para além de qualquer reconhecimento.
            A conclusão é que o capitalismo histórico não era o livre mercado. Em vez disso, ele foi um sistema anti-competitivo e pró-empresas de controles e subsídios, no qual o governo e os interesses mercantis trabalharam juntos, em uma tentativa equivocada de produzir crescimento econômico e de promover as fortunas de interesses bem-conectados específicos. Como em qualquer período, há rentistas e governantes que os favorecem, com uma porta giratória entre os dois grupos. Mas é importante notar que não houve nenhuma tentativa de planejamento econômico abrangente. Desta forma, havia escopo para empreendedorismo, que precisa de pouco encorajamento para florescer. Por padrões históricos, o fardo do governo era leve. A grama brota através das rachaduras na calçada. Um pouco de liberdade econômica já faz muito.
            Este relato histórico é relevante para entender a base a partir da qual a economia dos E.U.A. evoluiu e perceber que a trajetória de desenvolvimento foi diferente do que teria sido se um verdadeiro livre mercado tivesse existido. O privilégio teve efeitos de longa duração, os quais nós ainda sentimos hoje, devido ao que Kevin Carson chamou de "subsídio da história".
            Assim, não se pode dizer que aqueles que chamam o sistema de hoje de "capitalismo" estejam usando o termo erroneamente. Defensores do verdadeiro livre mercado, portanto, seriam bem aconselhados a evitar usá-lo para descrever seu sistema social preferido.


NOTAS:

[1] Stephen Kinzer, “Caribbean Communism v Capitalism,” The Guardian (Guardian News and Media, Jan. 22, 2010) <http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2010/jan/ 22/cuba-communism-human-rights> (March 13, 2011).

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Autonomia Individual e Auto-Determinação

Autonomia Individual e Auto-Determinação


Resposta a Wayne Price. “Kevin Carson’s Revival of Individualist Anarchist Economic Theory”, Anarkismo.net, 30 nov. 2014.


O resumo geral de Wayne Price da minha abordagem em Estudos em Economia Política Mutualista (também disponível online) é bastante imparcial e justa (ao contrário de alguns outros, por exemplo, a crítica à Markets Not Capitalism, ed. por Charles Johnson and Gary Chartier, feita por Magpie Killjoy do Crimethinc - vide a réplica de William Gillis). Ele começa com uma espécie de elogio sobre minha análise do capitalismo nas duas primeiras seções do livro:


Kevin Carson está tentando ressuscitar a teoria econômica anarquista. Isto é interessante, porque a maior parte da economia política anarquista atual é especulação sobre uma economia pós-capitalista e pós-revolucionário - com o que ela se pareceria e como poderia funcionar. Há pouco ou nada de uma análise sobre como o capitalismo dos dias de hoje funciona. Para isso, a maioria dos anarquistas ou se apoiam em uma variedade da economia convencional (pró-capitalista) ou olham para aspectos do Marxismo.


E ele aceita - ao invés de estipular a contragosto - a natureza essencialmente não-capitalista do modelo de mercado que eu proponho.


Kevin Carson apresenta o anarquismo individualista como pró-mercado mas anti-capitalista e mesmo "socialista". Ele rejeita o programa "anarco-capitalista" de corporações capitalistas (com trabalhadores contratados por salários) mas sem um estado. Uma (hipotética) economia mutualista poderia incluir pequenas empresas, lojas, oficinas, cooperativas de consumidores e fazendas familiares. Em vez de trabalhadores contratados, as empresas seriam democraticamente administradas por seus membros (cooperativas de produtores). Os bancos seriam uniões de crédito (bancos cooperativos). Essas empresas todas concorreriam livremente no mercado aberto. Não haveria qualquer regulamentação estatal, ou sequer estado. A "justiça", ou pelo menos a paz civil, seria mantida através de arranjos em sua maior parte locais por parte de cidadãos armados.


Isso seria uma economia produtora de mercadorias, mas não capitalismo, mesmo para padrões Marxistas. Não haveria nenhuma classe separada de pessoas que seriam donas do capital, tampouco haveria uma classe especializada de trabalhadores sem propriedade que tivessem que se alugar para os capitalistas a fim de viver.


A bem da honestidade, eu deveria mencionar que a propriedade cooperativa de ativos produtivos em empresas multi-trabalhador não seria realmente obrigatória em meu modelo, tampouco a contratação de trabalho por salários seria proibida (como no sistema de David Ellerman, que automaticamente atribui a reclamação residual aos trabalhadores). Eu o vejo, sim, como uma abolição do "sistema salarial", no sentido de que o trabalho contratado não mais definiria estruturalmente o sistema como o faz no nosso. Com o acesso privilegiado da classe econômica dominante aos meios de produção abolido e removidas as barreiras legais que atualmente mantém a escassez artificial e as despesas dos meios de produção para as pessoas trabalhadoras, eu acredito que haveria muito menos trabalho assalariado, ele seria uma parte marginal do sistema e, onde ele de fato existisse, seria essencialmente não-explorador, na medida em que as deduções de renda, lucro e juros dos salários do trabalho decairiam a quase nada e o poder de barganha aumentado do trabalho daria aos trabalhadores uma voz muito mais forte sobre suas condições de trabalho. Mesmo com patrões e trabalho assalariado nominais, as empresas com empregados assalariados assumiriam, em grande parte, o caráter de facto de cooperativas auto-geridas, com o dono sendo pouco mais do que um co-trabalhador, cujo "lucro" equivale a um "salário de superintendência".


E, ao passo que expressa uma série de reservas menores ou maiores sobre tal modelo de mercado não-capitalista e cooperativista, Price está bastante disposto a tolerá-lo como um arranjo dentro de uma sociedade pós-estado pluralista.


Eu não teria objeções a alguma comuna ou região que experimentasse seu programa orientado ao mercado. Isto está de acordo com o pluralismo experimental de Errico Malatesta… e com o apoio do próprio Carson a uma "panarquia" pluralista.


Não obstante, a tradição do próprio Price se encontra com "o anarquismo socialista revolucionário de luta de classes de Bakunin, Kropotkin, Goldman e Makhno, os anarquistas comunistas e os anarquistas sindicalistas...".


A primeira crítica de Price ao meu modelo de mercado é que, embora seja não-capitalista, "não é uma visão social muito democrática".


Assumindo que funcionasse, os membros da comunidade não fariam decisões gerais sobre como desenvolver sua sociedade; isto seria decidido por empresas concorrentes respondendo ao mercado não controlado. Mesmo empresas democraticamente geridas não controlariam de fato seu próprio destino; isto seria determinado pelos sobes e desces do mercado externo.


Em resposta, eu primeiro notaria que mesmo os anarquistas coletivistas normalmente não celebram a tomada de decisão coletiva ou democrática como um bem por sua própria conta, mesmo quando nenhum acordo é necessário; em tais casos, a autonomia individual e a auto-determinação são um bem por si mesmas.


Na época em que eu escrevi Economia Política Mutualista, eu mal havia começado a investigar coisas como organização em rede, estigmergia e governança p2p. Desde então, estas coisas - que eu considero altamente democráticas - desempenharam um grande papel em definir minha concepção de democracia. Como eu argumentei em A Revolução Industrial Caseira (pt) (um argumento também central ao meu livro em progresso, The Desktop Regulatory State), se pensarmos sobre a democracia como aumento no grau em que nos aproximamos da unanimidade do consentimento, então o tipo de organização estigmérgica característico de grupos de desenvolvimento open source e da Wikipedia são a última palavra em democracia. Cada um dos projetos empreendidos tem o consentimento unânime de todos que participam dele. De fato, alguns Marxistas e comunistas libertários vêem o software open source como o cerne da futura sociedade comunista.


Segundo, se eu bem me lembro, eu pelo menos toquei na propriedade de recursos naturais enquanto propriedade comum em Estudos em Economia Política Mutualista. Se não, o tipo de gerenciamento de recursos de reserva comum sobre o qual Elinor Ostrom escreveu em Managing the Commons era definitivamente algo de que eu era a favor mesmo então. Então a produção e a determinação de preços de uma parcela considerável das matérias-primas consumidas pela comunidade maior estariam sujeitas à governança democrática.


Uma outra crítica, mais fundamental, é que eu ignoro a possibilidade de que os mercados, como tais, só possam existir com um estado.


Ele demonstra que o estado sempre interviu no mercado capitalista. Mas isto não prova que o mercado é possível sem o estado. Se qualquer coisa, pareceria demonstrar que uma economia de mercado exige um estado.


Se o estado criou o mercado, o mercado criou o estado. Um mercado competitivo e de troca de mercadorias coloca cada pessoa em conflito com todas as outras pessoas, cada firma competindo com todas as outras firmas. Ele encoraja o conflito, a miopia e o egoísmo. Ele requer uma instituição geral para manter a sociedade unida, para servir aos interesses gerais dos atores econômicos dominantes. Essa instituição só pode ser um estado.


Eu diria que aqui Price está ilegitimamente confundindo mercados, como tais, com a mediação da maior parte da atividade social através do nexo monetário. Eu admitidamente coloco menos ênfase nos mercados agora como um meio voluntário entre muitos para governar as relações econômicas do que eu o fazia na época em que escrevi Economia Política Mutualista. Estou muito mais próximo agora do que estava então de me ver como um "anarquista sem adjetivos". Eu vejo as trocas de mercado como um de tais meios, ao lado de economias sociais como da dádiva e o comunismo de unidades sociais primárias como projetos domiciliares multi-famílias, ocupas e comunas urbanas, complexos de famílias estendidas e similares. E, por causa da minha pesquisa subsequente em micromanufatura e produção alimentar em pequena escala, eu vejo uma grande parte das necessidades de consumo sendo produzidas eficientemente dentro de tais entidades comunistas, com o preço de mercado governando apenas entradas externas como matérias-primas. Mas mesmo em 2004, eu não usei os termos "livre mercado" ou "anarquista de mercado" no sentido de uma sociedade dominada pelo nexo monetário; antes, eu quis dizer com ele apenas uma sociedade que compreendesse a soma total de todos os meios de interação voluntária, livre associação e ajuda mútua - e da qual a troca de mercado não está excluída por definição.


Price também tem problemas com minha abordagem da mudança gradual sistêmica através da construção de contra-instituições, argumentando que tais instituições seriam marginais e tenderiam a ser cooptadas para uma divisão capitalista do trabalho, a menos que fossem incorporadas a um movimento insurrecionário de massa mais amplo para transformar a sociedade.


Eu tenho bastante mais a dizer sobre esta questão do que tinha em 2004. Da maneira em que o vejo, o modelo de transformação social baseado em movimentos insurrecionários de massa pressupõem a necessidade de atacar e conquistar instituições de alto comando como corporação e estado - uma "guerra de manobra" - para o propósito de ocupá-las e/ou desmantelá-las. Em suma, é um modelo da era industrial em que a massa é necessária por razões objetivas e materiais. Mas, embasado na minha pesquisa ao longo dos últimos 6-10 anos, eu acredito que mudanças na tecnologia de produção e de comunicação tornaram as antigas instituições-dinossauro da era industrial tecnicamente obsoletas e materialmente desnecessárias para o tipo de sociedade que queremos construir. Conforme as ferramentas de produção e a horticultura intensiva em solo se tornam radicalmente mais baratas em menores em escala e hiper-eficientes em seu uso de recursos, a propriedade concentrada da terra e do capital está se tornando cada vez menos um ponto de estrangulamento para a efetivação do controle sistêmico. As antigas forças estruturais como a escassez artificial e os custos de terra e capital estão perdendo seu poder de forçar a economia alternativa para dentro de uma divisão capitalista do trabalho. Em vez disso, a nova economia pós-capitalista está matando o capitalismo corporativo de fome. De fato, as correntes mais interessantes do comunismo libertário, como o modelo autonomista de Hardt e Negri em Commonwealth, sugerem um modelo de "êxodo" de produtores iguais, com base em recursos comuns, secedendo da antiga economia capitalista.


De maneira ainda mais fundamental, Price vê um mercado não-capitalista como inerentemente instável e com probabilidade de decair para o capitalismo.


Mesmo que fosse alcançado, eu duvido que o sistema anarquista individualista funcionaria por muito tempo. Competindo no mercado, seguindo a lei do valor, algumas firmas cooperativas se dariam melhor do que outras. Haveriam vencedores e perdedores. Os vencedores ficariam maiores e mais ricos, os perdedores faliriam. Um conjunto de trabalhadores desempregados se desenvolveria. Haveriam ciclos empresariais de expansões e recessões. A estratificação se desenvolveria dentro e entre as empresas. As cooperativas e famílias fazendeiras mais ficas dominariam as associações de "auto-defesa", que assumiriam o controle do policiamento. Um estado de facto emergiria.


Este argumento de "vencedores e perdedores" não é novo. O próprio Friedrich Engels o usou em Anti-Duhring, argumentando, contra a "teoria da força" de Duhring, que o capitalismo teria emergido espontaneamente a partir de um mercado pacífico mesmo sem a história de apreensão de terras e escravidão - "escrita em letras de sangue e fogo" - que Marx recontara no volume um do Capital. Eu a vi afirmada pela maioria dos anarquistas coletivistas, comunistas e sindicalistas com quem argumentais, incluindo Christian Siefkes (na lista de e-mail da Foundation for P2P Alternatives) e o editor da Anarcho-Syndicalist Review Jeff Stein (em comunicação privada).


Mesmo na época de Engels, eu acho que tais argumentos exageravam grandemente a probabilidade da riqueza se concentrar em algumas poucas mãos sob condições em que nenhuma escassez artificial garantida pelo estado existisse para permitir o crescimento da riqueza sobre riqueza através do juros composto e que o acesso generalizado à terra baldia permitisse que mesmo trabalhadores assalariados se sentassem fora do mercado de trabalho durante períodos prolongados. Mas independente disso, os argumentos pressupõem um modelo de tecnologia de produção intensiva em capital que está obsoleto agora. O barateamento radical e a efemerização da tecnologia estão tornando o próprio conceito de "vencedores" e "perdedores" sem sentido. Como eu argumentei em resposta a Siefkes em Revolução Industrial Caseira,


Uma resposta, no modelo de produção flexível, é que não há razão para se ter quaisquer perdedores permanentes. Primeiro de tudo, os custos fixos são tão baixos que é possível enfrentar um período lento indefinidamente. Segundo, na produção flexível com baixos custos fixos, na qual o maquinário básico para a produção é amplamente acessível e pode ser facilmente realocado para novos produtos, não há realmente nada como um "negócio" para se sair. Quanto menor a capitalização exigida para se entrar no mercado e quanto mais baixos os custos fixos a serem suportados em períodos de negócios lentos, tanto mais o mercado de trabalho assume um caráter em rede e orientado a projetos - como, por exemplo, a peer-production de software. No software livre, e em qualquer outra indústria em que o produtor médio produz é dono de um conjunto completo de ferramentas e a produção se concentra principalmente em projetos auto-geridos, a situação provavelmente é caracterizada não tanto pela entrada e saída de "firmas" discretas quanto por um equilíbrio constantemente alternante de projetos se fundindo e se dividindo, com agentes livres constantemente mudando de um para o outro...


Um outro ponto: em uma sociedade em que a maioria das pessoas é dona dos tetos sobre suas cabeças e conseguem atender à maior parte de suas necessidades de subsistência através da produção caseira, os trabalhadores que são donos das ferramentas de seu ofício podem se dar ao luxo de enfrentar períodos de negócios lentos e serem um tanto exigentes em esperar para serem contratados pelos projetos mais adequados às suas preferência. É bastante provável que, na medida em que alguma forma de emprego assalariado ainda existisse em uma economia livre, ela tomasse uma parte muito menor da economia total, o trabalho assalariado fosse mais difícil de encontrar e o emprego assalariado fosse muito mais marginal. Na medida em que esse emprego assalariado continuasse, ele seria a província de uma classe de trabalhadores itinerantes pegando trabalhos quando precisassem de um pouco de renda suplementar ou para constituir alguma poupança e então se aposentando por longos períodos para uma vida confortável vivendo de seus próprios domicílios. Este padrão - vivendo dos recursos comuns e aceitando o trabalho assalariado apenas quando fosse conveniente - era precisamento o que os Cercamentos tinham a intenção de erradicar.


Pela mesma razão, o medo padrão de "desemprego" na indústria de produção em massa no estilo americano é, na verdade, bastante vinculado ao local e em grande parte irrelevante para a manufatura flexível dos distritos industriais no estilo europeu. Em tais distritos e, em uma medida considerável, na indústria americana de vestuário, o compartilhamento de trabalho com horas reduzidas é escolhido em detrimento a demissões, de modo que os deslocamentos a partir de uma recessão econômica são bem menos severos. Ao contrário da presunção americana de um "local de trabalho" como foco central do movimento trabalhista, o distrito industrial assume a solidária comunidade de ofício como a ligação de longo prazo primária para o trabalhador individual, e o local de trabalho em qualquer dado momento como um estado passageiro de coisas.


E, finalmente, em uma economia relocalizada de produção em pequena escala para mercados locais, em que a maior parte do dinheiro é circulado localmente, tende a haver uma tendência muito menor em relação a ciclos de expansão e recessão ou fluações radicais nos preços das mercadorias. Em vez disso, provavelmente haveria uma adequação razoavelmente estável da oferta à demanda no longo prazo.

Como querela menor, Price diz que eu falhei em notar as previsões de Engels sobre a tendência cada vez maior em direção a uma "estratificação completa do capitalismo" (citando Engels): "O representante oficial da sociedade capitalista - o estado - irá, em última análise, ter que se encarregar da direção da produção". Na verdade, ao discutir a nacionalização de de indústrias de extração centralmente importantes e da infraestrutura de comunicação e transporte sob o "socialismo democrático", eu fiz referência específica às passagens relevantes de Engels em Anti-Duhring.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Governança, Agência e Autonomia: Temas Anarquistas na Obra de Elinor Ostrom

INTRODUÇÃO



Este artigo é proposto como um em uma série, a ser lido em conjunto com meu anterior sobre James C. Scott, sobre pensadores anarquistas e descentralistas cuja afeição pela particularidade de instituições locais e de escala humana ultrapassa quaisquer rótulos ideológicos doutrinários.


A Governança de Recursos de Reserva Comum. Ostrom começa observando o problema do esgotamento de recursos naturais, o que ela chama de "recursos de reserva comum" - e então passa a examinar três teorias principais largamente complementares ("conceitos intimamente relacionados") que tentam explicar "os muitos problemas que as pessoas enfrentam quando tentam alcançar benefícios coletivos": a "tragédia dos comuns" de Hardin, o dilema do prisioneiro, e a "lógica da ação coletiva" de Olson.


Infelizmente, estes modelos (ou este modelo) se ossificou em um dogma, servindo mais frequentemente como um substituto para o pensamento do que como um ponto de partida. Mais do que vinte anos após a obra seminal de Ostrom, ainda é comum afirmar como um truísmo - suportado apenas por uma alusão passageira a Hardin ou ao dilema do prisioneiro - que os usuários reais de recursos inevitavelmente os esgotarão na ausência de governança por parte de uma autoridade superior ou outra. Ostrom cita uma afirmação jovial, em um artigo sobre áreas de pesca na The Economist: "deixados à própria sorte, os pescadores vão explorar excessivamente os estoques .... [P]ara evitar o desastre, os gestores devem ter hegemonia efetiva sobre eles".


Esta última citação exemplifica perfeitamente a abordagem comum em relação à governança de recursos de reserva comum assumida por defensores tanto da regulamentação estatal quanto da privatização corporativa. O próprio Garrett Hardin, revisitando mais tarde seu artigo sobre a tragédia dos comuns, argumentou que o problema de esgotamento de recursos teria que ser abordado ou por "um sistema empresarial privado" (isto é, propriedade por parte de firmas empresariais com fins lucrativos) ou pelo "socialismo" (isto é, propriedade e regulamentação por parte do estado). (A suposição de que a "empresa privada" e o "socialismo" ambos exigem hierarquias administrativas de um tipo ou de outro e são incompatíveis com instituições horizontais e auto organizadas, diz muito sobre os valores internalizados do estrato intelectual.)


Ostrom passa a considerar o desempenho insatisfatório tanto do Estado quanto do mercado na resolução do problema.


Dever-se-ia notar imediatamente que a justaposição entre "propriedade comum" e "propriedade privada" apresentada pelos libertários capitalistas do mainstream é simplesmente tola. Nos casos em que parcelar um recurso comum pelos indivíduos é, pela natureza do caso, impossível, Ostrom diz, é-se duramente pressionado para entender exatamente o que se quer dizer com "privado". Campos abertos ou pastagens comuns podem ser divididas em lotes separados e distribuídas aos indivíduos; mas áreas de pesca? Recursos de reserva comum, pela natureza das coisas, devem ser possuídos e governados por algum tipo de instituição coletiva, quer se trate do Estado, de uma corporação ou de uma associação horizontal auto organizada dos próprios usuários.


A propriedade por parte de uma corporação com fins lucrativos não é mais "privada" do que (ou, se você preferir, tão "coletivista" quanto) a administração de bens comuns por parte de seus usuários. Na lei corporativa, a propriedade de uma firma é detida, e sua gerência empregada, por uma pessoa unitária criada sob os termos da licença corporativa. Nenhum acionista individual ou grupo de acionistas têm qualquer direito de propriedade sobre os ativos da firma ou autoridade sobre sua gerência.


Ambas as abordagens convencionais de "privatização" e "regulamentação estatal" equivalem, quando todas as ficções legais são tiradas fora, a substituir o julgamento dos usuários pelo de gestores trabalhando para alguma autoridade central absenteísta (talvez apenas em teoria, trabalhado, na verdade, por seus próprios interesses). Então poderíamos esperar que isso resultasse nos mesmos problemas de conhecimento e incentivo que sempre resultam de externalizar custos e benefícios, quando a propriedade e o controle estão divorciados do conhecimento direto da situação.


Por outro lado, poderíamos esperar que colocar o controle diretamente nas mãos daqueles com o conhecimento local Hayekiano de uma situação resulte em resultados bem preferíveis a qualquer uma das duas outras abordagens baseadas em verticalidade e controle absenteísta.

E as descobertas de Ostrom confirmam essa expectativa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Revolução Estigmérgica

A Revolução Estigmérgica
Por muito tempo se acreditou que a rainha desempenhava um papel central na complexa ordem social de uma colônia de formigas, através do exercício do comando direito e do controle sobre suas súditas. Não é assim. O biólogo Pierre-Paul Grasse cunhou o termo "estigmergia" para a organização social do formigueiro. Não há nenhuma coordenação central, nenhuma hierarquia, nenhum mecanismo administrativo. O comportamento de cada formiga é inteiramente espontâneo e autodirigido, conforme ela responde de forma independente aos marcadores químicos de trilha deixados por outras formigas.

Mark Elliot, cuja dissertação de doutorado é provavelmente o melhor estudo sobre o assunto até hoje, aplicou o termo "estigmergia" a qualquer forma de socialização humana na qual a coordenação é alcançada, não pela negociação, administração ou consenso sociais, mas inteiramente pela ação individual independente contra o pano de fundo de um meio social comum.

Essa é essencialmente a forma organizacional usada pela comunidade desenvolvedora do Linux, por movimentos de resistência em rede como a rede global de apoio às Zapatistas dos anos 1990 e pelo movimento anti-globalização pós-Seattle. É a maneira como a Wikipédia e a al Qaeda são organizadas.

Eric Raymond, escrevendo sobre a comunidade de software open source, a chamou de o modelo "Bazar". Sob o modelo Bazar, cada contribuição individual é modular. Toda participante é auto-selecionada e sua ação é baseada inteiramente em seu julgamento independente do que precisa ser feito. Assim, todas as ações não são o resultado de consenso ou do consentimento da maioria, mas do consentimento unânime de todas que participam. Aquelas com o nível mais alto de interesse em um aspecto particular de um problema e com a mais alta afinidade para encontrar uma solução funcional contribuem com essa parte do projeto.

Em movimentos em rede, qualquer contribuição ou inovação desse tipo em uma única célula só será adotada por aquelas que a acharem valiosa. Aquelas que são consideradas valiosas instantaneamente se tornam propriedade de toda a rede, livres para a adoção por todas. Assim, os indivíduos auto-selecionados mais interessados em resolver problemas estão espontaneamente desenvolvendo soluções inovadoras por toda a rede e aquelas soluções que funcionam imediatamente ficam disponíveis para adoção por cada célula decidindo apenas por si mesma.

Como Cory Doctorow aponta, as gravadoras desenvolveram seu DRM na crença errônea de que ele só tinha que ser forte o suficiente para deter a usuária média e que o pequeno número de geeks capazes de quebrá-lo seria economicamente insignificante. Mas, na verdade, só é necessário uma geek para quebrar o DRM e postar um MP3 em um site de download por torrent e ele fica livremente disponível para as usuárias médias. Em uma organização estigmérgica, a inteligência de cada uma se torna propriedade de todas, virtualmente sem quaisquer custos de transação.

Em contraste com uma organização administrada hierarquicamente, em que as inovações propostas devem ser avaliadas e deliberadas - gestadas - por uma autoridade central ao longo de um período de muitos meses, uma rede estigmérgica atravessa mudanças geracionais na práxis com a velocidade de uma levedura replicante.

Isso é exatamente o que aconteceu com os movimentos sociais do último ano e meio - o arco desde a liberação de telegramas da Wikileaks no verão de 2010 até os últimos desenvolvimentos no Occupy Oakland. Bradley Manning, um heroico soldado moralmente estarrecido pelas atrocidades cometidas pelas forças dos EUA no Iraque, alegadamente tomou para si liberar centenas de milhares de telegramas diplomáticos sigilosos para o Wikileaks. O Wikileaks decidiu postá-los na Internet.

Em face das tentativas de fechar o Wikileaks confiscando seu nome de domínio ou cortando vetores de financiamento como PayPal, o mecanismo de inovação estigmérgico entrou em alta velocidade. Milhares de sites de espelhamento brotaram em todo o mundo. Milhares mais de websites e blogs postaram os endereços IP numéricos para os sites do Wikileaks. E hackers como Rick Falkvinge do The Pirate Bay imediatamente começaram a pensar sobre um serviço aberto de nome de domínio e sistemas digitais abertos de pagamento.

Os telegramas do Wikileaks incluíam avaliações diplomáticas privadas do nível de corrupção no governo Tunisiano, que foram rapidamente circuladas através do Facebook entre a comunidade dissidente. Mohamed Bouazizi, um pobre vendedor de vegetais na Tunísia, ateou fogo a si mesmo em protesto após ser estapeado na cara por um oficial do governo, iniciando uma revolução que derrubou diversos governos árabes e, desde então, se espalhou de Londres e Amsterdam para a Espanha, para a Grécia e Israel, para a Madison e Wall Street - e daí novamente de Wall Street para centenas de cidades ao redor do mundo.

A tentativa do Egito de destruir a revolução desligando a Internet induziu projetos como a ContactCon a um novo sentido de urgência em desenvolver uma "NextNet", um rede mesh aberta global que não possa ser desligada porque os únicos nós de roteamento são o próprio hardware das usuárias nas pontas.

O próprio movimento Occupy opera estigmergicamente, com inovações desenvolvidas por um nó se tornando parte do conjunto de ferramentas comum do movimento total. Alguns manifestantes em Oakland fizeram o primeiro experimento em ocupar um prédio comercial vazio e encorajar os sem-teto a ocupar construções vazias e condenadas em toda a cidade. Elas fizeram isso de uma maneira desajeitada e imprudente, infelizmente, provocando uma cruel repressão da polícia.

Mas a ideia básica permanece e alguém logo o fará melhor - porque esta é a maneira em que a estigmergia trabalha. Por toda a América, ainda existem prédios comerciais vazios e casas de propriedade de bancos e milhões de pessoas sem teto que precisam de um lugar pra dormir. Não existe polícia e vice-xerifes suficientes no mundo para impedi-los de se mudarem, se eles colocaram em suas cabeças de começar a se mudar por sua própria iniciativa.

Além disso, os sem-teto não têm nada a perder - se forem expulsos, ele estiveram abrigados pelo período de tem em que durou. E cada despejo se torna outro ponto de falha para o sistema, a ser divulgado com vídeos de celulares e cobertura streaming na Internet. Cada casa se torna o local de outra posição defensiva, outro pesadelo de RP para as "autoridades" locais arrastando famílias para fora de seus lares diante dos olhos do mundo. O movimento de Minneapolis já se interpôs em defesa da proprietária removida Monique White.

É apenas uma questão de tempo até que os movimentos Occupy locais se tornem centros de inovação, não apenas em táticas de protesto, mas em novas formas de organização social nas comunidades em que vivem. Em comunidades por todo o país, as pessoas perceberão que são vizinhas que vivem na mesma cidade ou município - não há qualquer razão pela sua cooperação tenha que estar limitada ao parque ou praça da cidade.

O Occupy se tornará não apenas um movimento de protesto, mas uma escola para a vida: Sistemas locais de moeda e escambo para a troca de habilidades por parte de pessoas desempregadas, técnicas informais e caseiras de pequenas escala para trabalhadoras desempregadas que precisam prover tantas de suas necessidades quanto possível através do auto-provisionamento, técnicas horticulturais intensivas como a permacultura - as possibilidades são infinitas.

O Occupy Wall Street recentemente se tornou uma aula pública, com Michel Bauwens da Foundation for P2P Alternatives falando no Zuccoti Park sobre peer-production como um mecanismo para criação de valor e Juliet Schor discutindo ideais econômicos descentralistas e DIY em seu livro Plenitude. Uma personagem em Woman on the Edge of Time de Marge Piercy diz que o novo mundo, a revolução, não foi construído com slogans e grandes reuniões. Ele foi construído por pessoas que encontraram novas maneiras de se alimentarem, novas maneiras de ensinarem suas crianças, novas maneiras de se relacionaram umas com as outras.

Assim, em todo o mundo, estamos descobrindo maneiras de viver sem a terra e o capital das classes que pensam que são donas do planeta, maneiras de tornar sua terra e capital inúteis para elas sem ninguém para trabalharem-na para elas. E elas não podem nos parar, porque não temos nenhum líder.

Nas palavras de Neo, em "The Matrix":

"Eu sei que vocês estão com medo... vocês tem medo de nós. Vocês tem medo da mudança. ...Eu não vim aqui para lhes dizer como isso vai acabar. Eu vim aqui lhes dizer como vai começar. ...Eu vou mostrar a essas pessoas o que você não quer que elas vejam. Eu vou mostrar a elas um mundo sem vocês. Um mundo sem regras e controles, sem fronteiras ou limites. Um mundo em que qualquer coisa é possível."

Ou mais sucintamente, como Anonymous coloca: Nos espere.